O apoio às PMEs além do discurso
O discurso é o mesmo há décadas: para que haja o desenvolvimento econômico do País, criar políticas públicas que facilitem o acesso das pequenas e médias empresas ao crédito de longo prazo é fundamental para fomentar o crescimento e a competitividade. De efeito prático, no entanto, pouco se vê nesse sentido. No mercado tradicional de crédito, o financiamento dessas PMEs a taxas compatíveis com o seu momento de maturação ainda está aquém do esperado. A rigidez do spread bancário (diferença entre o que as instituições financeiras pagam para captar dinheiro e o que ganham para emprestar) é um dos principais motivos.
Mesmo com o menor juro básico (Selic) em 30 anos e uma inflação mais comportada, o spread nacional continua sendo um dos mais altos do mundo e uma das principais razões para o fraco desempenho da economia brasileira nessa primeira metade do ano, por inibir a tomada de crédito pelas empresas. O último levantamento do Banco Mundial mostra que o nosso spread (39,6%) é o segundo maior, ficando atrás somente de Madagásgar (45%) e na frente de Malawi (32,5%), ambos países africanos.
Neste contexto, destaco o importante papel das agências estaduais de fomento. Mesmo sem poder captar recursos externos, elas têm sido as principais financiadoras do capital produtivo das PMEs ao ofertarem crédito com baixas taxas de juros e longos prazos, dando o suporte necessário para que milhares de empreendedores não fechassem as portas nos últimos anos de crise econômica.
A Desenvolve SP é um exemplo. Com uma carteira de crédito de R$ 1,158 bilhão (a 4º maior entre bancos de desenvolvimento e agências de fomento do País – sem considerar o BNDES), a instituição, em ritmo descolado da economia nacional, financiou, em 2017, 25% a mais do que em 2016, registrando R$ 352,7 milhões em desembolsos para as PMEs. Atualmente, o spread bruto praticado pela agência de fomento é de 2,66% ao ano para operações de crédito com recursos próprios.
Contudo, à frente da Desenvolve SP por nove anos, posso afirmar que a instituição se desdobra para conseguir estimular a economia do maior centro financeiro da América Latina. Na corrida para fomentar investimentos que gerem, de fato, crescimento econômico, sempre defendi buscar alternativas que vão além da oferta de crédito. A maior aposta da Agência nos últimos anos, por exemplo, foi entrar no mercado de venture capital, passando a investir em Fundos de Investimento em Participações, com destaque para o “Inovação Paulista”, que apresentou o Estado como o berço mundial das chamadas Agtechs (startups de tecnologias agropecuárias).
No panorama geral, ainda que de forma mais vagarosa do que se projetava, há sinais de que o Brasil caminha para a retomada. Dos pilares fundamentais para destravar o potencial de crescimento do País, ao menos dois estão em andamento: assegurar a estabilidade da economia, retomando a confiança do investidor e do empresário; e a realização de reformas estruturais, que mesmo timidamente começam a entrar na pauta do Congresso Nacional.
A verdade é que não podemos descansar: empresários, governo e sociedade precisam arregaçar as mangas e apostar no aumento da produtividade. Mais do que nunca, é preciso investir em um novo ciclo de crescimento da economia.
Milton Luiz de Melo Santos para o DCI
