A contabilidade dos clubes de futebol
O esporte definido pela população brasileira como “a paixão nacional” sempre esteve em evidência na mídia, especialmente nos últimos anos quando suas transações financeiras passaram a movimentar quantias bilionárias. Embora haja esse volume gigantesco de capitais sendo movimentado, o que chama a atenção é que a grande maioria dos clubes brasileiros apresentam dívidas milionárias com o governo, bancos e até mesmo com os próprios atletas. Só para ilustrar, uma rápida pesquisa junto à consultoria Sportsvalue mostra que a dívida dos 20 maiores clubes brasileiros superam os R$ 10,2 bilhões, isso após 20 anos da edição da Lei Pelé (nº 9.615/1998), que prometia mudar a realidade financeira dos clubes. A grande questão é que essas empresas foram constituídas na forma de “entidades sem fins lucrativos”, e assim seus dirigentes empoderados pela popularidade de seus clubes, evitavam a divulgação completa de suas demonstrações contábeis, uma vez que isso poderia trazer à tona as deficiências de gestão e prováveis fraudes financeiras.
Ora, criar despesas desvinculadas de uma fonte de receita, é o caminho certo para o insucesso empresarial, e nos clubes essa realidade torna-se mais evidente pela flutuabilidade de suas receitas, que normalmente estão na arrecadação por jogos, prêmios, mensalidades de sócios e vendas de imagem, que em contrapartida possuem despesas fixas de salários, alugueis, manutenção, etc. Então como esses clubes conseguem se endividar junto aos bancos? Simples, há uma fonte de receitas que altera contabilmente esse equilíbrio, que é o Ativo Intangível que os clubes possuem. Sabemos que os atletas são indivíduos providos de substância física, mas suas habilidades futebolísticas são os ativos intangíveis que representam seu valor de mercado. portanto um atleta tem seu valor registrado, não apenas pelo seu custo de aquisição, mas pelo seu potencial em gerar futuras receitas, que quando sobrevalorizado infla contabilmente as demonstrações contábeis, permitindo aumentar o endividamento financeiro, por projeção de lucros que podem não se concretizar. No dito popular “faço um empréstimo, dando por garantia um futuro aumento de salário que não sei se vou ter”.
Para citar um exemplo, vejamos o que está ocorrendo com o Cruzeiro de Minas Gerais, recentemente transformado em Sociedade Anônima de Futebol e adquirido por um investidor, que tornou pública a sua situação financeira, adotando decisões rígidas de controle, que podem não ser as desejadas pelos seus torcedores, mas necessárias para a própria sobrevivência do clube. Essa nova visão administrativa está exigindo a revisão da Norma Brasileira de Contabilidade ITG 2003 – Entidade Desportiva, editada pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) em 2013 e atualizada em 2017 que trata da contabilidade dos clubes de futebol.
Clécio S. Steinthaler
Ms Engenharia de Produção
Professor Faculdade Estácio Curitiba
