Mesmo diante de projeções alarmantes para pequenos negócios, um levantamento do Sebrae apontou que 47% dos donos de micro e pequenas empresas, além de microempreendedores individuais, avaliam que a medida não teria impacto sobre seus negócios.
Os números são da 9ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, feita entre novembro e dezembro de 2024. O estudo indica que apenas 1/3 (cerca de 32%) dos empreendedores acha que a medida será prejudicial para o próprio negócio.
“Entendemos que as mudanças na jornada devem ser feitas com diálogo e a partir de uma negociação com amplos setores da sociedade, garantindo segurança jurídica e sustentabilidade para empresas e trabalhadores”, afirma o presidente do Sebrae, Décio Lima.
Grandes empresários sobem o tom contra a escala 6×1
Por outro lado, no caso dos grandes empregadores, a CNI (Confederação Nacional da Indústria), diferentemente do Ipea, aponta que os setores de produção de larga escala teriam aumento de 25,1% (R$ 178,8 bilhões) no custo operacional com a redução para 36 horas semanais no modelo 4×3.

Setor da indústria em Santa Catarina sofreria impacto com possível perda de empregos com o fim da escala 6×1, dizem empresários – Foto: Marco Favero
Em caso de redução para 40 horas, os custos da indústria cresceriam até 11,1%, equivalente a R$ 87,8 bilhões. O custo da mão de obra na região Sul teria o maior impacto, com 8,1%.
A Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina) estima que 41,4 mil vagas de trabalho no estado seriam perdidas nos próximos dois anos com a redução da jornada de trabalho para 40 horas sem perda salarial.
“A perda de competitividade da indústria de SC nos mercados internacionais e a redução no nível de atividade econômica vão impactar especialmente os setores intensivos em mão de obra e que são mais sensíveis a preços, tanto no exterior como no Brasil”, afirmou o presidente da Fiesc, Gilberto Seleme.
Já a ABIH-SC (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Santa Catarina) estima que o fim da escala de trabalho 6×1 pode elevar em até 20% o valor das diárias de hotéis no estado, impactando no turismo — uma das principais atividades econômicas catarinenses.
A CNT (Confederação Nacional do Transporte) afirma que o setor já enfrenta dificuldades significativas de reposição de mão de obra qualificada. A confederação entende que a solução é a negociação coletiva com sindicatos.
A experiência do empresário que já migrou para a escala 5×2
Longe dos números de pesquisas e de levantamentos, microempreendedores de Florianópolis se adiantaram à definição sobre o fim da escala 6×1 e já adotaram novas rotinas de trabalho com seus funcionários.
Júlia Macedo, proprietária da padaria Pão à Mão, no bairro Santa Mônica, reduziu a escala para 5×2 há pelo menos sete anos, quando o sábado ainda representava o dia de menor movimento para a padaria.
Com 24 funcionárias, a padaria funciona de segunda a sexta, das 8h30 às 18h30. O horário fez com que até mesmo a clientela precisasse se adaptar. O pão de fermentação natural começa a ser assado às 6h, quando a primeira leva da equipe chega. Ela conta que, em parte, a decisão foi tomada após observar o perfil de consumo da padaria.

Padaria Pão à Mão, em Florianópolis, adotou escala 5×2 e vê satisfação de funcionários – Foto: Abinoan Santiago
“Por ser uma padaria, a gente tem que produzir tudo que pode vender, para não ter muita sobra. Então é todo dia tentando zerar o custo de produção; quando bate um faturamento, a partir dali é lucro. Sábado era o dia em que a gente mais tomava prejuízo”, explica.
A Amoriko Cafeteria e Brigadeiria funciona há 13 anos no tradicional bairro Ribeirão da Ilha e no Centro, em Florianópolis, de segunda a sábado. O empreendimento teve a escala de trabalho reduzida para 5×2 há apenas dois meses.
De acordo com o proprietário, João Paulo Bortolli, foi necessário um ano de planejamento antes da alteração. Não houve redução de funcionários nem de salários. No caso, a mudança resultou no melhor tratamento com o público e maior motivação dos funcionários.
“Percebemos que precisamos de pessoas bem cuidadas para cuidar dos outros. No 6×1, quando chegava no sábado, a pessoa já estava desgastada. É difícil lidar o tempo todo com o público, 8 horas por dia. Quando você tem essa quebra no meio da semana, ela passa num pulo. O atendimento ficou mais espontâneo. Até os clientes perceberam que as pessoas estavam mais felizes atrás do balcão“, conta.
Desde que passou a ter o fim de semana livre, Júlia não vislumbra retroceder na decisão, mesmo diante da possibilidade de aumentar o lucro.
“É muito insalubre você trabalhar na 6×1 na pegada que geralmente a galera da gastronomia trabalha. Hoje em dia, com o brunch que a gente oferece, eu sei que ia fazer sucesso se abríssemos aos sábados. Só que assim [na escala 5×2] é muito gostoso”, comentou.
“Para a gente abrir aos sábados, teria que ter muito mais gente na equipe. Então a folha ia aumentar muito e o lucro não ia compensar o impacto de sobrecarregar a folha nos outros dias”.
Escala 5×2 vira atrativo onde falta mão de obra
Na padaria Pão à Mão, diferentes braços carregam a farinha, amassam o pão, colocam-no no forno, vendem, torram o grão e passam o café. O trabalho manual, somado ao atendimento ao público, sintetiza a responsabilidade de quem trabalha com alimentação. Apenas esse ramo emprega 1,7 milhão de pessoas no Brasil.
“É muito insalubre você trabalhar na 6×1 na pegada que geralmente a empresa de gastronomia trabalha. A escala 5×2 faz com que a gente tenha uma taxa muito menor de faltas e de pessoas doentes. Para os níveis do setor, temos rotatividade bem baixa. É sempre muito rápido contratar aqui, porque o 5×2 também é um fator de escolha muito grande”, reforça Júlia, dona do empreendimento.
A preocupação da empresária em manter as funcionárias não é à toa. Bares e restaurantes trocam totalmente a equipe em um ano e quatro meses, em média. O dado é da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), que aponta que a taxa de rotatividade de pessoal — conhecida como turnover — chegou a 73,49% no Brasil.

Vagas de emprego na escala 5×2 se tornaram frequentes em sites de emprego – Foto: Reprodução/ND Mais
Em sites de vagas de emprego, o 5×2 virou atrativo. A escala de trabalho fica logo ao lado do cargo oferecido e é listada como um dos benefícios da oportunidade. Foi a estratégia usada pelo proprietário da Amoriko, que explica que a mudança na jornada foi a solução encontrada para a dificuldade de contratar funcionários.
“Todo mundo operava na escala 6×1 e era a forma que mais funcionava até então para a gente. Mas, de dois anos para cá, sentimos muita dificuldade para conseguir colaboradores e uma demanda forte por parte deles, não só por aumento salarial, mas também por mais tempo fora do trabalho, qualidade de vida”.
Empreendimentos de outros setores já nascem sem o 6×1 e há anos servem de exemplo para a transição de jornada. É o caso da tecnologia, afirma Adriana Bombassaro.
A empresária é proprietária da FastBuilt, de Blumenau, cujo software é usado pela construção civil. Com 40 funcionários, a empresa funciona de segunda a sexta. Para ela, os benefícios da jornada sempre foram óbvios.
“Quando você tem alguém bem descansado, que pode conviver mais tempo com a família, essa pessoa vem mais motivada, engajada. […] O nosso propósito também é fazer a diferença na sociedade em que estamos envolvidos. São 40 famílias aqui que dependem do trabalho dessas pessoas”, reforça.
Jornada implica debater produtividade
O professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Fernando Moreira explica que o primeiro e mais importante passo para a mudança de jornada não tem custo. Em síntese, o especialista em Direito Empresarial, Governança e Compliance sustenta que a discussão sobre a produtividade dos funcionários antecede a redução da jornada.
Ou seja, empresa precisa trabalhar para reorganizar processos e melhorar a produtividade dos seus empregados. Dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostram que o Brasil tem a posição 91 entre 110 países em produtividade por horas trabalhadas.
“Reduzir quatro horas por semana — cair de 44 para 40 horas, por exemplo — não é uma grande diferença se houver impacto real na produtividade. Isso passa por readequação de escala por interesse da própria empresa, não apenas por interesse normativo. Se a empresa consegue oferecer mais descanso ao trabalhador, ela terá um trabalhador mais dedicado, que rende mais”, simplifica.
Reduzir a jornada de trabalho e manter o negócio aberto seis dias por semana exigiu organização e planejamento, além do aumento da produtividade na Amoriko Brigaderia. Não houve aumento do custo operacional, mas o maior aproveitamento do potencial de cada funcionário e fortalecimento do trabalho em equipe.
“A gente teve que rever vários processos, colocar pessoas trabalhando um pouco a mais para cobrir o colega enquanto ele folga. […] É um processo em que um ajuda o outro. Então a gente teve que rever alguns processos internos para fazer dar certo”, explica.

Amoriko, em Florianópolis, colocou fim à escala 6×1 e teve aumento de procura em vagas – Foto: Divulgação/ND Mais
O dilema entre a folga e o salário
O dia de Vitória Reis, de 18 anos, começa às 4h da madrugada, quando inicia a jornada até o trabalho, que começa às 6h. Atendente de uma lanchonete no Ticen (Terminal de Integração do Centro), em Florianópolis, a jovem precisa escolher o que fazer com o único dia de folga na semana. Após seis dias corridos, no automático, ela admite que o tempo livre é usado para descanso e manutenção da casa.
“Eu acho pouco tempo, porque de manhã você quer dormir, já que acorda cedo a semana toda. Então levanta meio-dia, faz as coisas que no dia a dia não dá. Lavar roupa, fazer marmita e tal. É cansativo”, fala, dando de ombros.

Vitória Reis, 18 anos, trabalha 6×1 no Centro de Florianópolis – Foto: Abinoan Santiago/ND Mais
A diminuição da jornada sem gerar custo ao empregador e sem perda salarial se apresenta como cenário ideal. Para isso, a CNI defende a livre negociação entre patrão e empregado. Já deputados mais à esquerda e sindicatos ressaltam o desequilíbrio de forças de barganha entre o funcionário individualmente e as empresas.
Apesar de desejarem um dia a mais de folga na semana, tanto Vitória quanto Lauren — a trabalhadora do começo da reportagem — temem que uma jornada reduzida signifique salário menor, o que não é negociável para ambas.
“O 5×2 é um atrativo, mas às vezes, por conta do salário ser um pouco abaixo da média, acaba influenciando muito a trabalhar 6×1. Isso pesa muito na balança. No sábado, apesar de a gente trabalhar menos horas, é o dia em que a gente acaba ganhando um pouquinho a mais do que trabalhando em dia de semana; tem mais movimento”, afirma Lauren.
O trabalhador que não quer voltar para a 6×1
Trabalhadores do 5×2 contam como um dia a mais de folga faz diferença na vidaVídeo: Abinoan Santiago/ND Mais
Formada em gastronomia, a gerente Bruna Oliveira pegou a transição da mudança para a escala 5×2 na padaria Pão à Mão. Foi um divisor de águas em sua rotina e relação com o trabalho na área, agora com tempo para fazer o que sempre quis.
“O principal para mim é ter tempo para a família, então consigo dedicar tempo para vê-la ao fim de semana. Além disso, tem como fazer as tarefas de casa, mas o principal para mim é continuar estudando gastronomia, área na qual sou formada”, comenta.
Padeira no mesmo estabelecimento, Leticia Betarello, de 33 anos, também é musicista. O samba preenche os dois dias da semana em que não trabalha. Voltar a trabalhar seis dias por semana não é mais opção para ela, que, além de profissional, é muitas outras coisas.
“O meu critério de escolha de trabalho é que seja 5×2. Se precisar, tem que valer muito a pena financeiramente, porque eu sei que vou sacrificar muito da minha vida. Então, na verdade, eu não estou disposta. Eu sei que vou perder muito tempo.”
A experiência resume um sentimento que cresce entre trabalhadores: mais tempo fora do trabalho passou a pesar tanto quanto o salário.





Resumindo, quem pode menos, paga mais.