Selic, brasas e sardinhas
Há um longo tempo, em Porto Alegre, autoridades decidiram construir um viaduto, pelo simples motivo de que ali ocorriam muitos acidentes. Seguiu-se estridente campanha contra a decisão; descobriu-se, mais tarde, que a origem da campanha era um médico proprietário de uma clínica para acidentados nas proximidades. Do mesmo modo, funcionários de bancos estaduais com medo da privatização alegam defender o interesse público; professores em greve por salários argumentam defender a qualidade da educação; medida proposta pelo presidente do STF para desafogar os tribunais provoca a ira daqueles que auxiliam criminosos a recorrer em liberdade até a prescrição da pena. No Congresso, deputados e senadores realizam admiráveis contorções intelectuais para defender o próprio interesse.
Tudo isso me vem à mente ao observar a controvérsia gerada pelo Copom, que decidiu em sua ultima reunião reduzir a Selic do alto dos estratosféricos 12,5 para 12% ao ano – a mais alta taxa básica do mundo. Em meio a um cipoal de incertezas, o Banco Central agiu para evitar um quarto trimestre talvez catastrófico, consequência das crescentes dificuldades dos países desenvolvidos que podem contaminar a interdependente economia mundial.
Analistas confiáveis como Affonso Celso Pastore e Mendonça de Barros surpreendem-se com a redução, mas há alguma virulência em outros atores do sistema financeiro. Alegam que isso tornou o cenário mais imprevisível, e administradores de fundos tiveram prejuízo em função de ajustes necessários nas carteiras de investidores: desprevenidos, apostavam na alta dos juros (ou sua manutenção) nos mercados futuros e perderam cerca de R$ 2,1 bilhões de um dia para outro. Há uma circunstância notável: em suas avaliações o Banco Central subestima a opinião do empresariado, preferindo ouvir banqueiros.
O financista Amir Khair, no “Estadão”, tem alertado a respeito do excesso de juros pagos a um sistema financeiro viciado em papéis públicos. Sobre o tema, Paul Volcker, o respeitado ex-presidente do Federal Reserve (o banco central americano) brada contra os lucros do sistema bancário, de 40% dos lucros totais da economia estadunidense. Sem estatísticas confiáveis, afirmo que no Brasil esse percentual é maior ainda: desse desmedido volume de lucros, qual o valor socialmente reconhecido e que traz benefícios para a sociedade?
A presidente quer baixar os juros, mas ela pode contar com a oposição feroz, verbal, escrita e presencial de influentes indivíduos e setores econômicos que pensam primeiro e sempre em puxar a brasa para sua dourada e exclusiva sardinha. Eles querem, como o personagem do Chico, que o resto se exploda.
* por Miro Hildebrando, doutor em economia – hggbrando@gmail.com / artigo publicado no A Notícia
