Relação comercial brasileira se deteriora
Na semana que se passou, o Ministério de Desenvolvimento divulgou os resultados prévios da balança comercial brasileira de novembro de 2010. Um saldo superavitário de US$ 312 milhões, vindo de um volume de exportações de US$ 17,688 bi e importações totalizando US$ 17,376 bi. Aparentemente, o saldo se apresenta como um bom resultado, levando a imaginar que a performance comercial externa do País ainda se mantém adequada, especialmente para o Brasil que, na década passada, obtinha resultados deficitários. Entretanto, quando se destrincham os números relativos às relações dos residentes com os não residentes, não apenas com relação ao fluxo comercial, mas incluindo serviços e movimento de rendas, percebe-se que se está caminhando em uma direção não muito confortável.
Observando o fluxo comercial, nota-se que as exportações brasileiras têm crescido de forma forte neste governo, mas que as importações têm acompanhado esse crescimento e, nos últimos anos, têm crescido muito mais que as exportações em termos relativos. De um lado, isto leva a deduzir que não se tem recursos internos suficientes para sustentar o volume de exportações, aumentando a dependência da economia brasileira com relação aos insumos de produção de importados. De outro, mostra um lado preocupante, pois pode ser o reflexo da valorização do real frente à moeda norte-americana, que torna os produtos importados mais baratos frente ao produto nacional, desestimulando a indústria nacional.
Outra questão relevante a ser observada é que na, pauta de importações, observa-se a relevância de bens de capital, o que leva a acreditar que, aproveitando a taxa de câmbio baixa, muitos empresários estão realizando investimentos no setor produtivo para adequação e ampliação da capacidade produtiva. Esta atitude é benéfica para a economia brasileira, pois, no médio e longo prazos, têm-se o ajuste necessário na oferta de bens e serviços, aliviando a pressão inflacionária e, consequentemente, abrindo o caminho de forma sustentável à redução da taxa de juros referencial da economia brasileira.
Mas as questões que realmente preocupam não residem nos aspectos comerciais, e são justamente aquelas que não são divulgadas abertamente pelo governo e pouco exploradas pela própria mídia. A importância de se obter um saldo positivo na balança comercial é que, assim, o País passa a ter moeda estrangeira (reserva cambial) para honrar seus compromissos internacionais; se compramos algo em dólar, temos de pagar em dólar, daí a necessidade de um país possuir “moedas estrangeiras em estoque”. Se não as tiver, não tem como pagar, ou seja, ou pede moeda estrangeira emprestada ou declara moratória. Nesse sentido, o problema que o País enfrenta é que este superávit tem sido usado para cobrir o saldo deficitário na balança de serviços e no movimento de rendas.
Traduzindo em números: até outubro, a balança comercial acumulava um superávit, neste ano de 2010, de US$ 14,627 bi, insuficientes para fazer frente a um saldo deficitário acumulado da balança de serviços de US$ 25,420 bi. Para agravar a situação, o saldo do movimento de renda acumulado apresenta um saldo negativo de US$ 30,330 bi. Somando-se estes números, chega-se a um defícit de US$ 41,123 bi. Este número representa o quanto se reduziu a reserva cambial ao longo deste ano. Mas a reserva cambial brasileira não aumentou ao longo de 2010? Sem dúvida, mas à custa do financiamento externo, ou seja, do capital especulativo que aporta em nosso País, pressionando a taxa de cambial cada vez mais para baixo. Ou seja, o Brasil está se tornando cada vez mais vulnerável a ataques especulativos!
* por Otto Nogami, professor de economia do Insper e do INPG / artigo publicado no A Notícia

