Qual o nosso interesse nacional?
Agora que está ficando cada vez mais claro que a presidente Dilma está mudando algumas linhas do governo anterior, principalmente em relação à política externa, é importante que o Brasil discuta qual o interesse nacional neste mundo globalizado. Vários fatos demonstram que o Brasil já é uma potência que ascendeu. Basta analisar, a visita do presidente dos EUA, Barack Obama, uma vez que, em diplomacia, até um gesto tem significado, e a vinda dele foi cercada de gestos.
O Brasil já é uma potência. É um importante ator nos fóruns internacionais de decisão. Entretanto, está difícil, e vai ficar cada vez mais para o Itamaraty coordenar ações isoladas em cada um desses fóruns sem haver claramente uma definição de quais os interesses nacionais que deem uma lógica de ação coordenada entre todos eles.
Para citar alguns exemplos: desde o governo FHC, nossa diplomacia defende a abertura do comércio agrícola mundial, mas, quando aceitou a proposta dos países desenvolvidos, essa foi rejeitada por Índia e China. Já no G20, ou mesmo no FMI, nós defendemos o câmbio flutuante como a melhor forma de se conseguir um comércio mais justo, enquanto a China mantém a sua moeda subvalorizada artificialmente para manter as suas gigantescas exportações, inclusive inundando nosso mercado com seus produtos. E, apesar dessas diferenças, nos reunimos com esses dois países, mais a Rússia, no Bric.
Essa expressão foi criada por um banco de investimento no ano de 2001 a fim de indicar aos seus clientes quais seriam os maiores mercados até meados deste século. Fora isso, não há fatores em comum que naturalmente unam esses governos em busca dos mesmos objetivos.
Não bastassem todas essas diferenças entre os quatro membros, a África do Sul foi aceita como membro do grupo, como uma forma de dar mais representatividade política. O que não ficou claro é qual representatividade o Bric tem perante os países em desenvolvimento, pois eles não conseguem definir objetivos comuns, como vão defender interesses que sejam realmente de todos os outros países menos desenvolvidos?
Falou-se muito de que o voto coordenado desse grupo no Conselho de Segurança da ONU foi o exemplo de articulação entre eles. Mas há que se tomar muito cuidado com essa análise apressada. O voto foi em relação à crise da Líbia, e a autorização para o uso da força para impedir o massacre que ocorreria se o líder daquele país retomasse a cidade de Benghazi. China e Rússia se absterem significa a mesma coisa de aprovação de uma resolução do conselho, eles têm poder de veto, enquanto que Brasil e Índia não o têm, o que dá um significado político diferente aos votos.
Além do mais, quando o Brasil justificou seu voto, afirmou que uma ação armada não resolveria o problema, sem apontar qual solução existiria para aquela situação. Não é agindo assim que o Brasilc vai conseguir o respeito para ser um membro efetivo desse órgão internacional tão importante, uma vez que não apoiar e não dar alternativa não é participar das soluções dos problemas internacionais.
Falta realmente uma clara definição de quais são os nossos interesses nacionais para que o Brasil possa articular claramente suas ações internacionais com as políticas nacionais, e se, efetivamente, percebido como uns país indispensável e crível na condução da política mundial.
* por Gunther Rudzit, professor da Sustentare Escola de Negócios / artigo publicado no A Notícia

