Inovação e resistência
Meu amigo Sauro, o fazendeiro rico – et pour cause, moderadamente influente – certa vez me asseverou que novas tecnologias o irritavam. Coisas da moda, passageiras, ele identificava nelas certo componente de futilidade que um dia ficariam para trás. Ouvinte fiel da “Voz do Brasil” e piloto de uma valente Rural Willys 1975, insistia que o essencial já estava construído e bem-feito.
Ele não está sozinho. Minha própria experiência em variados ambientes tem mostrado que a resistência à inovação é algo notável, sua aceitação é condicional, e à menor falha volta-se ao status anterior.
O caderno “Ciência” da “Folha” (6/5) apresenta um artigo sobre iniciativa do mundo rico: no Vale do Silício, foi formada a Universidade da Singularidade, uma instituição informal para criar liderança e fomentar ideias novas. Os alunos são pessoas cujas iniciativas tiveram impacto positivo em mais de um bilhão de pessoas. Ouve-se ali com frequência a queixa de que as pessoas estão habituadas a pensar de maneira linear, não exponencial.
E o progresso – pelo menos em algumas áreas – é exponencial: novos equipamentos para guerra e tratamento de doenças, softwares e hardwares para incrementar a conexão entre TVs, PCs e telefone. Robotização crescente, implantação de chips em humanos, carne artificial, novos transgênicos, soluções criativas para captação de água e transporte de massa, viagens espaciais e transações financeiras 100% automatizadas (sim, sem humanos). E no entremeio, centenas de milhares de pequenas (e fundamentais) ideias complementares que fazem com que o futuro multipolar esteja batendo assustadoramente à nossa porta.
E a esse respeito, o que nossas universidades estão fazendo? Sonolentas federais e espertas (no mau sentido) instituições privadas em boa parte apenas ensinam teorias que mudam rapidamente com a crescente sofisticação dos mercados, que destroem conceitos que muitos rotulam como pós-capitalismo ou marxismo anacrônico, tanto faz. Currículos antiquados, professores viciados em esquemas cansados e alunos desmotivados que conservam atitudes de gerações anteriores: buscam apenas o diploma e o conforto de uma função estável.
Precisamos criar think tanks multidisciplinares, estimular lideranças visionárias, trocar reitorias acomodadas, cutucar associações empresariais voltadas a presepadas e a alegres (e inúteis) missões comerciais e substituir executivos do governo despreparados e medíocres. Convocar malucos, rebeldes e porras-loucas, ovelhas negras, estudantes e empresários “fora da casinha”; trazer gente de longe e minorias esquecidas pode ajudar muito – poucos descobriram o significado e o valor da diversidade.
* Miro Hidelbrando, doutor em economia / artigo publicado no A Notícia

