Contrabando vs. tributação: desafios das políticas antitabagistas no Brasil
Por Leonardo Roesler
O aumento do preço mínimo da vintena e das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) aplicáveis ao maço e ao box de cigarro, promovido pelo governo brasileiro, tem implicações significativas e multifacetadas sobre o consumo deste produto.
Do ponto de vista econômico, a elevação do preço mínimo e das alíquotas do IPI tende a reduzir a acessibilidade econômica dos cigarros. Estudos demonstram que aumentos nos preços dos produtos de tabaco resultam em uma diminuição direta na demanda, especialmente entre os jovens e as camadas de baixa renda da população. Este fenômeno pode ser explicado pela elasticidade-preço da demanda, que no caso dos cigarros é relativamente alta. Assim, um aumento de 10% no preço do cigarro pode levar a uma redução de até 5% na demanda.
Ademais, a política de preços mínimos, estabelecida pela Lei nº 12.546/2011, tem o objetivo de evitar que os cigarros sejam vendidos a preços excessivamente baixos, o que poderia incentivar o consumo, sobretudo entre jovens e pessoas com menor poder aquisitivo. O preço mínimo serve, portanto, como uma barreira econômica, dificultando o acesso ao produto e, consequentemente, contribuindo para a redução do consumo.
Se olharmos para o argumento da saúde pública, o aumento dos impostos e do preço mínimo dos cigarros é uma medida coerente com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o controle do tabagismo. A OMS recomenda a adoção de políticas tributárias rigorosas como meio eficaz de desincentivar o consumo de tabaco e reduzir a incidência de doenças relacionadas ao fumo. Neste contexto, a elevação do IPI sobre os cigarros visa, não apenas a aumentar a arrecadação tributária, mas também a promover a saúde pública, ao desencorajar o consumo de um produto notoriamente prejudicial.
Entretanto, é importante considerar os potenciais efeitos adversos dessa política. Um dos principais desafios é o aumento do contrabando de cigarros, uma vez que a elevação dos preços dos produtos legais pode tornar os cigarros contrabandeados uma alternativa mais atraente para os consumidores. O mercado ilegal, que já possui uma participação significativa no Brasil, tende a se expandir em resposta ao aumento dos preços dos cigarros legais. Isso não apenas prejudica a eficácia das medidas de controle do tabagismo, mas também gera perdas significativas de receita tributária e aumenta os riscos associados ao consumo de produtos de qualidade duvidosa
O contrabando de cigarros no Brasil é uma questão persistente, exacerbada por políticas tributárias que elevam os preços dos produtos legais. A elevação dos impostos amplia a diferença de preços entre os produtos legalmente comercializados e os contrabandeados, que são vendidos a preços substancialmente mais baixos. Este diferencial de preço cria um forte incentivo econômico para que os consumidores optem pelos produtos contrabandeados, que não estão sujeitos à mesma carga tributária.
Após o aumento do IPI em 2016, houve um crescimento substancial no mercado ilegal de cigarros, com o contrabando representando uma significativa parcela do mercado total de cigarros no Brasil. Essa situação evidencia a vulnerabilidade das políticas tributárias elevadas em um contexto em que o controle de fronteiras é insuficiente para conter a entrada de produtos ilícitos. Além da questão da evasão fiscal, os produtos contrabandeados frequentemente não atendem aos padrões de qualidade e segurança estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), expondo os consumidores a riscos adicionais de saúde. A proliferação de cigarros ilegais compromete os objetivos de saúde pública que motivam a elevação dos impostos sobre os produtos de tabaco.
Para mitigar esses efeitos colaterais, é essencial que o governo adote uma abordagem integrada, combinando políticas tributárias com medidas robustas de fiscalização e controle de fronteiras. O fortalecimento das operações de fiscalização e o aumento das penalidades para o contrabando são passos cruciais para garantir que o aumento dos impostos sobre os cigarros não resulte em um incremento paralelo do mercado ilegal. A cooperação internacional com países vizinhos também é fundamental para combater eficazmente as redes de contrabando que operam além das fronteiras nacionais.
Fiscalização para evitar contrabando
Por fim, embora o aumento do IPI e do preço mínimo dos cigarros tenha o potencial de desestimular o consumo de tabaco, é imperativo que o governo implemente medidas complementares de fiscalização para evitar que tais políticas incentivem práticas ilegais de contrabando, minando os objetivos fiscais e de saúde pública almejados.
A reforma tributária introduz significativas alterações na tributação dos cigarros ao instituir o Imposto Seletivo. Este novo tributo, também conhecido como “imposto do pecado”, visa substituir parcialmente o atual Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e incidirá especificamente sobre produtos considerados prejudiciais à saúde, como cigarros.

O objetivo central desta modificação é desestimular o consumo de cigarros através de uma elevada carga tributária. Estudos e experiências anteriores indicam que o aumento dos preços, resultante de uma carga tributária mais alta, é eficaz na redução do consumo de produtos de tabaco, especialmente entre jovens e pessoas de baixa renda. Ao elevar o custo dos cigarros, a reforma busca reduzir a acessibilidade econômica e, consequentemente, o consumo desses produtos nocivos à saúde.
Contudo, uma preocupação significativa é o potencial incremento no contrabando de cigarros. A diferença de preço entre os produtos legais, sujeitos a uma alta carga tributária, e os produtos contrabandeados, que não pagam impostos, pode tornar o mercado ilegal mais atraente para os consumidores. O aumento do contrabando não apenas prejudica a arrecadação fiscal, mas também compromete os objetivos de saúde pública, uma vez que os produtos ilegais frequentemente não seguem os padrões de qualidade e segurança.
Para mitigar esses efeitos adversos, é crucial que a implementação do Imposto Seletivo seja acompanhada de medidas robustas de fiscalização e combate ao contrabando. Isso inclui o fortalecimento das operações de controle de fronteiras e a adoção de tecnologias avançadas de rastreamento de produtos, garantindo que os cigarros comercializados no país sejam devidamente tributados e que o consumo de produtos ilegais seja reduzido.
A reforma tributária, ao instituir o Imposto Seletivo sobre os cigarros, visa a aumentar a carga tributária sobre esses produtos para desestimular seu consumo. No entanto, o sucesso dessa medida dependerá da implementação de estratégias complementares para combater o contrabando e assegurar que os benefícios fiscais e de saúde pública sejam efetivamente alcançados.

