A economia e a educação
O crescimento da economia gera um fenômeno que a estas alturas quase todos já são sabedores – há uma demanda importante por profissionais e algumas organizações já estão quase na fase do desespero – infelizmente para todos. Explico. A qualificação do trabalhador passa necessariamente por sua formação e este é um processo longo, que requer investimentos – do governo, na educação básica, das famílias, que podem e devem estimular seus pimpolhos a lerem (muito, desde muito jovens), das escolas que precisam acompanhar o desempenho dos alunos e dos professores, não com base no número cru de aprovados/reprovados, mas de acadêmicos capazes de avaliar, compreender e solucionar problemas de complexidade crescente, pois afinal é isto que farão na sua vida adulta/profissional. O ensino tem que gerar a capacidade de absorção do conhecimento, e isto tem por ingrediente fundamental a qualidade.
Não podemos esquecer que as empresas chamam as pessoas de capital humano, e este capital é valorizado por sua condição de aprender, aplicar o que aprendeu e querer fazer bem aquilo que faz. Com toda certeza, é a combinação do capital com o humano que promove o enriquecimento do País.
É sabido que cada ano a mais de estudo acrescenta ganhos salariais à remuneração dos trabalhadores. É fato que os processos de produção (sejam eles quais forem) estão cada vez mais sofisticados. Que a tendência a maior automação, maior tecnologia e mais informação definirá uma maior autonomia do trabalhador. Que a escola hoje busca preencher lacunas importantes no campo da formação básica, mas ainda não prepara para a reflexão e para a crítica, fundamentais para um mundo em transformação. Que as empresas adotam programas e novos modelos de treinamento e desenvolvimento e criam universidades corporativas que trabalham o comportamental, o conceitual, o técnico e, principalmente, buscam atender às demandas futuras do negócio.
Mas, acima de tudo, no meio disto tudo, não é possível que o indivíduo adulto não seja o responsável por sua qualificação. Crescer é um exercício do querer, um esforço da vontade. É necessário que a pessoa se aposse do seu destino e busque ativamente o desenvolvimento.
No entanto, em sala de aula, observamos um silencioso e resistente desinteresse, que muitas vezes vai às raias do desrespeito por si mesmo, pelos colegas e por aquele que multiplica o conhecimento.
Sou consultora organizacional e acompanho de perto os investimentos das empresas para selecionar, capacitar, desenvolver e promover pessoas. E não estou falando de situações isoladas, mas de um processo contínuo, intramuros. Mas também sou professor – a e acompanho o outro lado da formação e qualificação. E enquanto nas empresas vejo o empenho e o interesse de ambas as partes em “chegarem lá”, na academia me deparo com uma infraestrutura de primeira, com professores com titulações consistentes e com alguns acadêmicos genuinamente interessados em crescer, contribuir e se fortalecer para um mercado cada vez mais exigente. Como vocês devem ter observado, eu disse “alguns”, quando deveria ter dito só “acadêmicos”, o que embutido traria a ideia de todos!
Pobres indivíduos, pobre País, pobres empresas. Ainda por muito tempo seremos aquilo que somos – sujeitos e não agentes do nosso destino.
* por Lise Steigleder Chaves, consultora em Gestão de Pessoas / artigo publicado no A Notícia
