A dependência dos caminhos trilhados
A imagem do mestre explicando pacientemente um novo conceito ao jovem discípulo nos vem à mente quando o neologismo do título é criado pelos economistas e difundido por meio de livros, artigos jornalísticos e científicos. A situação não é nova, mas o entendimento do fenômeno é algo recente e significa que, quando damos um passo na direção certa, uma das prováveis consequências é o aumento das probabilidades que a esse passo se siga outro igualmente favorável. O mesmo se aplica quando damos um passo errado: as possibilidades de se seguirem outros do mesmo gênero aumentam significativamente.
Se aplicarmos esse conceito às políticas públicas, descobriremos que medidas na direção certa produzem resultados ainda melhores – e poderíamos listar uma série de “passos” recentes, como a Lei da Responsabilidade Fiscal e a Lei da Ficha Limpa, sem falarmos de decisões acertadas como as que permitiram tratar melhor os pobres e distribuir, ainda que escassamente, um pouco da riqueza gerada pelo País.
Vejamos o caso da difícil batalha para deixar para trás a crise de 2008 e que agora fustiga os países europeus. Após meses de conversações inúteis e, como diz o economista Mohamed El-Erian, novo colunista do “Estadão”, “múltiplas ameaças de colapsos turbulentos e trocas de acusações”, além do aceno nada animador do esfacelamento da União Europeia – cuidadosamente construída em mais de cinquenta anos de negociações – surge agora a possibilidade de melhoria efetiva no cenário econômico do velho continente.
Isso decorre de medidas difíceis, como algum acordo entre o FMI, BCE e demais credores com respeito à enfermiça Grécia e ao despejo de quase um trilhão de euros nos mercados financeiros (a juros de 1% ao ano), uma medida arriscada que se revelou a salvação de dezenas de bancos entalados com ativos de duvidosa liquidez. Essa mesma medida que, vista de outro ângulo, fez com que a presidente Dilma se queixasse abertamente de um “tsunami de liquidez” que prejudicaria países fora da órbita do MCE – como o Brasil. Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, arriscou o pescoço ao dar este passo – cujas consequências foram positivas não somente para o combalido sistema bancário, mas para vários governos especialmente maltratados pelo mercado financeiro.
Tudo isso significa que agora os problemas da maior zona econômica do mundo estão resolvidos e os emergentes podem relaxar? Longe disso, mas que alguns passos corajosos (e corretos) foram dados na direção certa e que a esses se seguirão outros do mesmo tipo ninguém mais duvida.
* por Miro Hildebrando, doutor em economia – hggbrando@gmail.com / artigo publicado no jornal A Notícia
