A ascensão dos corrompidos
O filósofo inglês Thomas Morus, retratado magistralmente no cinema por Paul Scofield em “O Homem que não Vendeu sua Alma” (1966), rompe a amizade com um agressivo e insistente Duque de Norfolk ao lhe dizer que a origem da nobreza “é uma cadela atrás do muro”. Bem mais tarde, John Kenneth Galbraith afirma, no vasto retrato “A Era da Incerteza” que, no início da industrialização americana, os homens rudes que enriqueciam fazendo as próprias leis tendiam, no empós, a certo refinamento; seus filhos eram melhores que seus pais, e seus netos tornavam-se nobres por meio do dinheiro.
No Brasil, a situação da aristocracia colonial era lastimável pelos padrões de hoje; seus herdeiros não se distinguiam das demais pessoas a não ser pelos padrões de consumo. Frequentemente, filhos e netos adquiriam certa nobreza ao obter o título de bacharel (que lhes dava o título honorífico de doutores) sem, entretanto, ter realmente estudado: o que importava era certo verniz cultural oriundo da Europa (gerando a fecunda rebeldia antropofágica de Oswald de Andrade, em 1928).
Contemporaneamente, temos a compra de prestígio, poder e nobreza por meio do dinheiro, em especial onde ele é mais abundante e relativamente disponível: o governo e suas numerosas repartições, autarquias, departamentos e empresas de economia mista, lugares de orçamentos elásticos e contabilidade flexível, feudos de corrompidos partidos políticos onde se praticam “para a família e os amigos, tudo; para os demais, os rigores da lei”.
Habituamo-nos a ver indivíduos, recém-chegados ao poder, acrescendo a seu modesto patrimônio pessoal casas, fazendas e aviões e, naturalmente, depósitos no exterior. Recursos para finalidades nobres (como segurança, merenda escolar ou auxílio a flagelados) não chegam aos beneficiários. Indivíduos se apropriam do Estado; uma simples lista de escândalos públicos, elaborada por uma imprensa livre e Ministério Público e tribunais de contas diligentes e vigilantes, ocupa muitas páginas. Juízes complacentes aceitam a chicana (pressurosamente defendida como parte das liberdades individuais) e livram infratores e criminosos da prisão.
Somos reconhecidamente um dos países mais corruptos: 26% do dinheiro movimentado pela corrupção mundial se originam do Brasil – algo como R$ 70 bilhões por ano, ou 2,3% do PIB. Existem 110 propostas engavetadas no Congresso Nacional para a moralização e mais rigor nas punições aos corruptos. Mas como convencer os parlamentares a aprovar algo que os prejudicará? E talvez algo mais difícil ainda: como fazer com que os eleitores deixem de eleger e sucessivamente reeleger os plutocratas e nouveau riche que nos governam?
* por Miro Hildebrando, doutor em economia – hggbrando@gmail.com / artigo publicado no A Notícia

