Ricardo Medrado
Líder de Operações Tributárias e Financeiras da EY
A crescente complexidade do ambiente fiscal brasileiro, combinada com a transformação digital e a reforma tributária sobre o consumo, tem acelerado a adoção de modelos de outsourcing tributário e contábil — especialmente entre multinacionais. Mais do que uma estratégia de eficiência, a terceirização dessas operações vem se consolidando como um vetor de governança, redução de riscos (tangíveis e intangíveis) e geração de inteligência para o negócio.
Historicamente, grandes empresas mantinham estruturas robustas internas para lidar com obrigações fiscais e contábeis. No entanto, o avanço das exigências regulatórias, aliado à necessidade de atualização constante frente a mudanças legislativas, vem tornando esse modelo menos eficiente. Nesse contexto, provedores especializados ganham relevância ao oferecer operações estruturadas, padronizadas e apoiadas por tecnologia de ponta.
A tendência é particularmente forte entre multinacionais, que operam em diversos países e precisam garantir consistência, comparabilidade e compliance global. Ao centralizar ou externalizar atividades fiscais e contábeis, essas companhias conseguem não apenas padronizar processos, mas também reduzir a exposição a riscos e melhorar sua capacidade de resposta a auditorias e fiscalizações.
Outro fator decisivo é a reforma tributária dos impostos indiretos, que introduz um novo modelo baseado no IBS e CBS. Embora o objetivo seja simplificar o sistema no longo prazo, o período de transição será marcado por elevada complexidade, exigindo alterações profundas em sistemas, processos e estruturas organizacionais. Nesse cenário, o outsourcing surge como alternativa super interessante para acelerar a adaptação, com equipes especializadas e prontas para operar sob o novo regime.
Além do componente regulatório, a automação tem sido um dos principais motores dessa mudança. Soluções baseadas em RPA (robotic process automation), inteligência artificial e analytics permitem a execução de tarefas repetitivas com maior precisão e velocidade, reduzindo significativamente erros operacionais. Ao mesmo tempo, essas tecnologias viabilizam o uso estratégico dos dados fiscais, transformando a área tributária em fonte de insights para decisões empresariais.
Provedores de outsourcing globais mais avançados operam hoje com alto nível de integração tecnológica, conectando ERPs, soluções fiscais e plataformas analíticas em ecossistemas digitais completos. Isso assegura rastreabilidade das informações, transparência nos processos e maior controle por meio de indicadores de desempenho (KPIs) e dashboards em tempo real.
Os resultados dessa transformação têm se refletido nos indicadores do setor. O mercado global de outsourcing de processos financeiros — que inclui funções tributárias e contábeis — vem registrando taxas consistentes de crescimento, impulsionado pela demanda por eficiência e especialização. Além disso, empresas que adotam esse modelo reportam altos níveis de satisfação e retenção, sustentados pela previsibilidade de custos, qualidade da entrega e foco crescente em experiência do cliente.
A retenção elevada também está associada ao papel cada vez mais estratégico desses serviços. À medida que as operações terceirizadas deixam de ser transacionais e passam a incorporar análise, planejamento e suporte à tomada de decisão, a relação entre cliente e provedor evolui para uma parceria de longo prazo.
“Não se trata apenas de executar rotinas fiscais, mas de garantir compliance em um ambiente dinâmico, antecipar riscos e apoiar decisões com base em dados confiáveis”, destaca um executivo do setor. “O outsourcing moderno está diretamente conectado à agenda de transformação das empresas.”
Apesar dos avanços, a adoção ampla desse modelo exige maturidade organizacional. Questões como segurança da informação, governança de dados, definição clara de responsabilidades e alinhamento de expectativas são determinantes para o sucesso da operação. A escolha do parceiro global também é crítica, devendo considerar não apenas capacidade técnica, mas investimento contínuo em tecnologia e conhecimento regulatório.
Com a convergência de três vetores — complexidade fiscal crescente, reforma tributária em curso e avanço acelerado da automação — o outsourcing tributário e contábil tende a se consolidar como um modelo dominante, especialmente entre empresas de maior porte e com atuação internacional.
Mais do que uma solução operacional, trata-se de uma transformação estrutural da função fiscal, que deixa de ser um centro de custo para se tornar uma área estratégica, orientada por dados, compliance e geração de valor.

Ricardo Medrado
Líder de Operações Tributárias e Financeiras da EY