Tiradentes e a escrita da história
Além do achamento do Brasil, comemoraremos em abril os 218 anos da execução do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, fato que ocorreu no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. Desde 1890, é feriado nacional nesse dia. Embora a efeméride tenha, nas últimas décadas, se esvaziada, a história de Tiradentes não perdeu o seu valor. Pois, trata-se de um rico exemplo de como que a escrita da história está ligada ao contexto em que ela é produzida. Nesse sentido, faço coro junto ao historiador italiano Carlo Ginzburg, para o qual a historiografia é um meio que serve para conhecermos mais sobre o contexto em que ela é produzida, que acerca do objeto por ela estudado.
Sabemos pouco sobre o Tiradentes da história. Ele nasceu em 1746, em uma fazenda próxima ao arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, em Minas Gerais. Foi o quarto filho do casal Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier. Tornou-se órfão aos 11 anos de idade. Após exercer várias profissões, entre as quais dentista, e perambular por diversos locais, Joaquim José da Silva Xavier ingressou no Regimento de Cavalaria de Minas, com a patente de Alferes. Autodidata, sabe-se que ele foi um militar competente, embora isso não tenha sido reconhecido pelos seus superiores.
Insatisfeito, deixou por um tempo o Exército, porém, diante de inúmeras dificuldades financeiras, retornou à carreira militar. Influenciado por isso e pelas ideias iluministas, Tiradentes se envolveu com uma conspiração separatista, entre 1786 e 1789, que ficou conhecida como Inconfidência Mineira. Delatada ao Visconde de Barbacena, na época governador da capitania de Minas, “o República”, como também era conhecido, foi preso no dia 10 de maio de 1789. Foi processado e condenado junto com outros 28 conspiradores. Desses, apenas Tiradentes foi executado.
Até a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, Tiradentes foi um ilustre desconhecido. O regime republicano foi implantado no Brasil através de um golpe militar sem qualquer apoio popular. Como ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o exercício do poder tem uma ampla dimensão simbólica. Assim, surgiu o mito de Tiradentes. Representado como um homem de barba e cabelos longos, tal como Cristo, simbolizava a presença antiga das ideias republicanas no Brasil. Nada mais anacrônico, já que, segundo os costumes de seu tempo, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado com a barba e os cabelos raspados. Além disso, os historiadores não têm a mínima ideia de como seria o rosto dele, sendo todas as representações imagéticas a seu respeito, na verdade, um grande chute.
A mitologia em torno de Tiradentes foi reforçada durante o Regime Militar (1964 – 1985), quando, em 1965, ele foi consagrado patrono da nação brasileira. Em uma época em que o Brasil era governado por generais, sua carreira militar foi usada como ícone para valorizar as Forças Armadas que comandavam o país. Porém, ao mesmo tempo, Tiradentes foi adotado pelos movimentos políticos de esquerda, como um símbolo de rebeldia contra a opressão e o poder. Nesse contexto, foi amplificada a sua relação com o Iluminismo, estabelecida através da leitura de autores, como por exemplo, Locke, Montesquieu e Rousseau. Essa imagem dual de Tiradentes permaneceu firme e forte até o final da década de 1980.
Para os críticos da História, a história da história de Tiradentes pode servir de prova para o caráter retórico desta ciência. Em parte, eles têm razão. Mas, cá entre nós, profissionais dessa área, isso já não é novidade. Desde as décadas de 60 e 70 do século passado, estudiosos, tais como os franceses Michel De Certeau e Paul Marie Veyne falam sobre isso. Talvez, resida aí a grande atualidade de recordarmos a execução de Tiradentes. Não como um evento cívico ou um ato de resistência, mas como uma lição acerca da complexidade e da diversidade de apropriações e significados com os quais a escrita da história está envolvida.
* por Wilson de Oliveira Neto é mestrando em Patrimônio Cultural e Sociedade na Universidade da Região de Joinville – UNIVILLE; Licenciado em História por essa mesma instituição; co-autor do livro O Exército e a cidade (UNIVILLE, 2008); Professor no Colégio Global (São Bento do Sul, SC) e no curso Persona Pré-Vestibular Medicina VIP (Joinville, SC). E-mail: wilhist@gmail.com
