Território, commodities e moedas: mistura indigesta
No dia 7 de setembro, enquanto comemorávamos a Independência brasileira, literalmente do outro lado do mundo surgia mais uma crise. Em uma região do mar do Leste da China, reivindicada por este país, mas controlada pelo Japão, um pesqueiro chinês acabou por se chocar com barcos da guarda costeira japonesa, o que levou à apreensão da embarcação e à prisão do seu capitão. Em reação a esta atitude, o governo de Pequim suspendeu todos os encontros bilaterais em nível ministerial, além de ter autorizado protestos contra o governo japonês.
Em 24 de setembro, o governo chinês informou que havia prendido, três dias antes, quatro trabalhadores japoneses da Fujita Corp., que estavam trabalhando na descontaminação de uma área que havia sido utilizada pelo Exército japonês na Segunda Guerra. A acusação foi de que teriam entrado em região militar restrita. No dia seguinte, o governo japonês anunciou a libertação do capitão chinês, que voltou em avião fretado ao seu país, e, posteriormente, no início de outubro, os trabalhadores japoneses também foram libertados. Contudo, a maior preocupação que se tem que ter com essa crise não foi a “troca” de presos, mas, sim, outro instrumento de pressão que a China usou.
No meio dessa crise, o governo de Pequim anunciou que as vendas de terras raras ao Japão tinham sido suspensas. Esses minerais, pouco conhecidos do público em geral, são estratégicos, pois contêm elementos que são essenciais para produtos de alta tecnologia, principalmente para a indústria da área militar. A alegação chinesa foi de que as empresas que fazem essa exportação, muitas das quais estrangeiras, haviam tomado essa posição por decisão própria frente à atitude japonesa. Conhecendo como a economia é controlada pelo Partido Comunista chinês, sabe-se que nada acontece sem, no mínimo, sua autorização, o que faz acreditar que essa versão foi anunciada a fim de não se configurar um embargo oficial.
A China conseguiu seu objetivo político utilizando um instrumento econômico, e isso se deu porque ela detém aproximadamente 97% dos depósitos mundiais desse minério tão importante. Um poder muito maior que o dos países da Opep, o cartel dos exportadores de petróleo, detêm hoje em dia. E a maior preocupação é que ficou claro que o Partido Comunista chinês está disposto a utilizar todos os meios necessários a fim de atingir seus objetivos.
Isto preocupa, tendo em vista o momento que o mundo vive. Apesar de parecer que já tenhamos superado a crise econômica, os países desenvolvidos ainda enfrentam baixo crescimento e alto desemprego, enquanto que há uma crescente crise financeira, que foi chamada de guerra econômica pelo ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega. Isto acontece porque alguns países desvalorizam a sua moeda a fim de conseguir exportar mais e assim tirar a economia da recessão, enquanto que os países que já saíram da crise têm a entrada de muitos investidores estrangeiros, o que leva à valorização de suas moedas, afetando negativamente suas exportações. Por tudo isso, há uma grande apreensão sobre a possibilidade de entrarmos realmente em uma guerra comercial, fato sobre o qual até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) já expressou sua preocupação neste sentido.
Além de uma guerra comercial, existe o receio de repetirmos os erros da década de 1930, quando houve grandes desvalorizações cambiais e políticas protecionistas para tirar os países da crise econômica de 1929. Essas ações econômicas contribuíram profundamente para elevar as tensões que resultaram na Segunda Guerra Mundial.
Chegar à mesma situação hoje é mais difícil, tendo em vista o aprofundamento da interdependência econômica. Contudo, com ações como as chinesas tomaram, faz com que se torne cada vez mais improvável um acordo na próxima reunião do G20 na Coreia do Sul em novembro. E, infelizmente, esse parece ser o cenário mais provável. E aí será “cada um por si”, e estará se configurando uma guerra econômica. Torçamos para que seja somente econômica.
* por Alexandre Schaeffer, empresário do segmento de comércio exterior / artigo publicado no A Notícia

