Resguarde-se a instituição
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá como certa a vitória de Dilma Rousseff já em primeiro turno, colocando uma boa margem de votos sobre o candidato tucano José Serra. Segundo Lula, a candidata petista deve permanecer bem longe da crise na Receita Federal, deixando muito claro ao eleitor que a quebra imotivada de sigilos fiscais não passou de “mera futrica” da oposição.
Num tom acima, Lula determinou à coordenação de campanha que o momento é de blindar a candidata Dilma Rousseff. Ao PT, a ordem é para desqualificar as denúncias da oposição, repetindo, à exaustão, que o ato praticado não partiu do partido. O ministro Guido Mantega, que andou falando mais do que o desejável, recebeu, aos palavrões, um “chega pra lá” presidencial.
Como tinha que sobrar para alguém, esse alguém é o secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo. Cada informação que o secretário passa ao público, no dia seguinte é desmentida por reportagens investigativas da imprensa. A humilhação com que Cartaxo está sendo submetido pelo governo federal ultrapassa as fronteiras do civilizado e do respeito mínimo que o Estado deve ao servidor público. Não é segredo para ninguém, que Cartaxo chegou ao posto no furacão da crise que afastou Lina Vieira da chefia da instituição, porque não se submeteu aos caprichos da – à época – chefe da Casa Civil, que insinuou um afrouxamento da fiscalização da Receita nas contas da família Sarney.
O ato de coragem e despreendimento de Lina Vieira, da mesma forma que lhe custou o cargo fez de Cartaxo o seu substituto. A fala do ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi desconcertante, ao afirmar que vazamentos de dados do fisco não é um acontecimento incomum e que isso sempre existiu. Como chefe do secretário da Receita e sabedor de crimes continuados na Receita, que motivos levaram o ministro a não tomar nenhuma providência? Será que em nenhum momento, o ministro Guido Mantega não pensou que a maioria esmagadora dos analistas e dos auditores da Receita é extremamente correta e decente, mas que, por conta das suas afirmações, está passando, indevidamente, por constrangimentos?
Não passou pela cabeça do ministro da Fazenda, por um momento sequer, que a sua fala pode levar com que o contribuinte duvide da credibilidade do principal órgão fiscalizador do Estado? Pelo perfil das pessoas que estão sendo invadidas nos seus sigilos e pelo perfil dos invasores, restam poucas dúvidas sobre a existência de motivação político-partidária. Os principais suspeitos, até agora citados ou são ou foram ligados ao PT. Quanto a isso, não paira dúvida nenhuma. Dilma diz que Aécio está por trás disso tudo. Então, Aécio é “o cara”: chamou um analista da Receita, infiltrou-o no PT de Arcos, fez com que se filiasse ao partido e depois exigiu que quebrasse o sigilo de Eduardo Jorge. Para disfarçar, saiu de Minas e fez o mesmo em São Paulo. Para finalizar, mais do que nunca deve-se resguardar a instituição Receita Federal e seus servidores de bem.
* Nilson Borges Filho, cientista político e professor – borgesfilho@uol.com.br / artigo publicado no A Notícia
