Procura-se um consultor desesperadamente!
Tempos estranhos estes! Nunca se produziu tanto, nunca se empregou tanto, nunca tantas pessoas se veem do dia para a noite fazendo parte daquele grupo que – oh vida! oh dor! – foi demitido! Parece desonra com direito a vendeta siciliana, no melhor estilo não pertenço mais à família! E aí eles correm para os consultores! E correm na busca de uma solução mágica, do tipo, “o que você fará por mim?” E a resposta via de regra é … nada! Está bem, nada é um exagero, mas de uma vez por todas tem que ficar claro que se consultor arranjasse emprego para alguém, não seria mais consultor, pois, com certeza, estaria milionário.
Consultor faz exatamente o que o título diz: presta consultoria e prescreve. Mas não é isso que as pessoas imaginam – muitas querem uma varinha mágica, uma poção milagrosa que os coloque numa situação de trabalho –, até porque ninguém sobrevive de brisa amorosa. E imaginam mais: que tudo isto ocorrerá numa conversa informal, com o tempo necessário para que todas as suas dúvidas sejam sanadas, o currículo refeito, e a lista de contatos atualizada. E grátis!
É como se precisássemos de um médico e déssemos uma passadinha, só para falar da dor aqui do lado e sair com a receita – sem plano de saúde, nem secretária cobrando antecipado! Algo me diz que os colegas de profissão estão dando risadas por pura identificação, e que todos aqueles com quem já conversei nos moldes acima estão me achando uma metida – mas vai lá!
Vale lembrar a todos que mudanças significativas nas relações entre o trabalho e o trabalhador definem não só um novo perfil profissional calcado na capacitação crescente das pessoas, mas também novos modelos para esta relação, muitas vezes delicada. Aquilo que até pouco tempo atrás se colocava como diferencial, hoje é condição básica. Assim, um operador de máquinas com ensino médio era preterido por outro com ensino fundamemtal porque a expectativa era de que houvesse uma rápida saturação e desmotivação em função da muita escolaridade daquele. Hoje, as empresas, não só exigem ensino médio como esperam que este profissional esteja preocupado em desenvolver outras competências como idiomas e informática. Executivos? Formação superior é pouco! Inglês? Nem se discute! Ideal é já dominar outros idiomas!
Emprego é uma das formas de relação de trabalho. Emprego formal pode até continuar sendo o sonho de toda mãe: 13º, férias, estabilidade, aposentadoria e missão cumprida! Mas qual? Tem o chefe, e o chefe do chefe, e o RH, e as psicólogas, falando sem parar em autodesenvolvimento, participação, comprometimento, time. E dê-lhe pós-graduação, idiomas no sábado, projetos, equipes multifuncionais, e mais uma infinidade de novidades copiadas da matriz ou simplesmente implantadas após a leitura de mais um best seller! Não sabemos mais quando, quanto e como estamos em relação ao nosso tão cobiçado emprego!
Por outro lado, a empregabilidade é a condição de exercer uma atividade produtiva, onde o ganho financeiro é decorrência direta da capacidade de fazer algo ou alguma coisa que alguém queira adquirir. Empregabilidade, portanto, não é se esfalfar para garantir o emprego; não é empurrar para outro algo que ele não queira; nem é apropriar-se do alheio. Vejam a lógica: se faço algo muito bem feito; se obtenho real satisfação com aquilo que faço; se para fazer mais e melhor eu me disponho genuinamente a estudar outro idioma e, principalmente, a dominar a linguagem da nossa Terra Brasilis, a pesquisar e estudar, a conversar com outros profissionais, a dividir e multiplicar conhecimento, naturalmente estarei no mercado de trabalho! Esta é a tendência: adeus estabilidade, adeus segurança, bem -vindos à era do resgate do trabalho, do construir constante e, portanto do crescer constante. Muito mais dinâmico, desafiador, rico, múltiplo e mais humano. Sem dúvida, mais difícil porque mais exigente; mais estressante porque menos garantido; mas, sem dúvida, muito melhor porque mais realizador.
Tudo isto para dizer o queexatamente: você foi demitido. Curta a dor – e dói! A autoestima vai passear e a demora a se fazer presente de novo. Aproveite e avalie sua vida e sua carreira – o que você fez de bom e o que poderia ter feito; onde errou e onde acertou; com quem você se relaciona e pode contar – para tomar um café, colocar a conversa em dia. Quem são seus amigos…
Procure um profissional que possa apoiá-lo e entenda, por favor, é um profissional! Logo, não espere favores. Espere serviços! Faça as tarefas, siga as orientações, assuma o processo como assumiria um desafio no seu emprego anterior. Aliás, procurar emprego é e dá muito trabalho! Cobre a qualidade do serviço prestado, mas não transfira para o consultor a responsabilidade pela sua recolocação.
E tenha certeza de uma coisa: toda esta situação contribuirá para o seu crescimento. Mesmo que você não encontre o emprego dos seus sonhos!
* por Lise Chaves, consultora em gestão de pessos / artigo publicado no A Notícia de 12.09.2010

