Pós-fixado garante o ganho na renda fixa
Investimentos em títulos de renda fixa indexados aos juros de curto prazo tendem a ser os mais seguros, porque valorizam-se em ritmo constante. Nos últimos meses, foram também os que tiveram a maior rentabilidade.
Os dados do Tesouro Direto, o sistema de negociação de títulos públicos pela internet administrado pelo Tesouro Nacional, confirmam. O rendimento acumulado no ano até o dia 3 de junho da Letra Financeira do Tesouro (LFT) com vencimento em 2017 foi de 2,92%. O título é corrigido diariamente pela taxa Selic.
Já a Letra do Tesouro Nacional (LTN) com resgate em 2016 rendeu apenas 0,02% no mesmo período. O papel é prefixado, negociado com um desconto sobre o valor de face.
Pior desempenho teve a Nota do Tesouro Nacional da série B com pagamento de principal e juros apenas no vencimento (NTN-B Principal). O título paga uma taxa préfixada e tem seu valor nominal corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O papel causou prejuízo de 8,74% aos investidores.
O preço de mercado das aplicações em papéis prefixados ou atrelados aos índices de preços costuma dar saltos. Como garantem um pagamento fixo no futuro — corrigido pela inflação no caso dos títulos indexados — a cotação diária varia, para cima ou para baixo, conforme mudam as projeções.
A noção que embasa essa variação é a tentativa de prever o comportamento dos juros no curto prazo e da inflação ao longo do tempo. A cada nova informação que é divulgada, o preço do título é ajustado.
O tempo é um fator que contribui para o aumento das incertezas. Portanto, quanto maior o prazo de vencimento da aplicação, maiores são as variações de preço. Como consequência, a oscilação da cotação dos títulos de longo prazo é maior do que a dos papéis que vencem em períodos mais curtos.
No começo do ano, o ritmo de aumento dos índices de preço provocou a expectativa de que o Banco Central (BC) poderia subir os juros para controlar a inflação. No entanto, devido à fraca atividade econômica, havia dúvidas se a alta das taxas seria a decisão mais eficiente.
O mercado de títulos de renda fixa começou a ser afetado, conforme mostrou a evolução do Índice do Mercado Aberto (IMA), divulgado pela Associação Nacional das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capital (Anbima).
O IMA é dividido em três indicadores principais: o IMA-S, que mede o desempenho de uma carteira composta apenas por LFTs; o IRFM, que acompanha os papéis públicos prefixados, e o IMA-B, que segue a rentabilidade dos títulos indexados ao IPCA.
O BC ajusta os juros de curto prazo a cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne em intervalos de aproximadamente 45 dias. A taxa definida ao término de cada encontro vale até o próximo, a menos que aconteça algum evento excepcional durante o período.
A primeira reunião do Copom do ano aconteceu nos dias 15 e 16 de janeiro e fixou os juros para o intervalo entre os dias 17 de janeiro e 6 de março. A decisão foi manter os juros em 7,25% ao ano. No período a rentabilidade do IMA-S foi de 0,91%, o IRFM subiu 0,14% e o IMA-B recuou 1,16%.
Ou seja, mesmo deixando a taxa Selic estável, as LFTs passaram a render mais do que os demais títulos públicos.

Na segunda reunião do Copom do ano, os juros foram estabelecidos para o período entre os dias 7 de março e 17 de abril. Novamente a decisão foi a de manter a Selic no patamar de 7,25% ao ano, mas o ganho do IMA-S continuou melhor, com alta de 0,84%. O IRFM rendeu 0,39% e o IMA-B caiu -2,96%.
Na terceira reunião do ano, o Copom decidiu pelo aumento de 0,25 ponto percentual da Selic. A nova taxa passou a valer a partir de 18 de abril até o dia 29 de maio. No intervalo, o IMA-S rendeu 0,83%, o IRFM teve uma pequena melhora em relação ao período anterior com ganho de 0,53% e o IMA-B continuou no território negativo, com perda de 0,93%.
Desde setembro de 2007, o Copom promoveu três ciclos de alta dos juros e duas rodadas de baixa. Uma nova etapa de alta começou em abril. Na média, os ajustes duraram 12 meses.
As observações sobre os ganhos dos indicadores de renda fixa ilustram os desafios do investidor daqui para frente. Os dados não embasam a conclusão de que, a partir de agora, como o Copom está iniciando um período de aumento da Selic, a melhor alternativa de investimento serão as LFTs ou os papéis vinculados à variação das taxas dos certificados de depósitos interfinanceiros (CDI).
Para aumentar os lucros será fundamental ter a sensibilidade do real comprometimento e autonomia do BC para adotar as medidas necessárias para reduzir a inflação. Mas uma coisa é certa: nem sempre a aplicação mais conservadora é a menos rentável.
Marcelo d’Agosto – Economista, com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, é especializado em administração de investimentos para o Valor Econômico

