O que é um investidor de valor?
A definição de investidor de valor foi se ampliando ao longo do tempo. Embora o investidor de valor se suporte sempre na análise fundamentalista, existem abordagens com diferenças importantes.
O termo “value investor”, algo como investidor de valor, tem como precursor o investidor norte-americano Benjamin Graham. Ele defendia que uma ação somente deveria ser selecionada quando seu preço estivesse depreciado com base em algumas métricas como alto “dividend yield” (retorno com dividendos), baixo múltiplo P/VPA (preço por valor patrimonial por ação) e baixo múltiplo P/L (preço por lucro), por exemplo. Com o tempo, outros investidores incorporaram novas abordagens como a análise do negócio, da administração, as perspectivas de lucros. Este novo enfoque teve/tem como adeptos o falecido Philip Fischer e Warren Buffett.
No quadro abaixo, pode-se perceber as diferenças entre as duas correntes.

A escola tradicional se baseia nos dados correntes de balanço, bem como na qualidade e na recorrência dos lucros e do fluxo de caixa. Com base nesses dados, escolhe as ações que estejam mais depreciadas. Além disso, monta uma carteira diversificada para minimizar os riscos.
Por outro lado, o investidor de valor qualitativo, não se importa muito com os múltiplos presentes, mas com os indicadores futuros. Dessa forma, a projeção de resultados assume posição de destaque. Por exemplo, a métrica adotada não é a do múltiplo P/L do ano em curso, mas o do próximo ano. Pode-se ainda utilizar a metodologia do fluxo de caixa descontado na qual as estimativas do fluxo de caixa para os próximos exercícios é trazida a valor presente a uma taxa de desconto. Caso o valor alcançado esteja muito acima do preço atual do papel, a ação pode ser considerada atrativa. Além disso, o analista dessa corrente observa a qualidade da administração e as perspectivas do negócio. Dessa forma, um múltiplo atual elevado pode não ser uma restrição ao investimento, pois o crescimento futuro dos lucros tende a desinflá-lo no médio prazo. Esta corrente costuma ter uma carteira mais concentrada tendo em vista o minucioso trabalho realizado, embora preconceitos e olhares viesados possam comprometer o resultado da análise.
Em resumo, o investidor de valor tradicional olha o presente, enquanto o qualitativo, o futuro.
Nos últimos anos, os qualitativos têm se saído melhor na bolsa brasileira. Ações de empresas com atividades voltadas ao setor doméstico, mesmo com múltiplos elevados, como Ambev e Lojas Renner, têm se comportado bem.
Há uma predominância de investidores qualitativos no mercado acionário brasileiro na minha percepção. Contudo, há estudos que mostram que, no longo prazo, a eficiência da abordagem mais tradicional é vitoriosa. Embora não me considere um analista tradicionalista radical, admito que tenho tido dificuldade de entender a valorização de algumas ações nos últimos tempos, com múltiplos P/L superando 20 vezes. O importante é que o investidor-leitor saiba diferenciar as duas estratégias. O que pode ser considerada uma ação cara para os tradicionalistas pode ser uma barganha para os qualitativos. O juiz será o tempo.
André Rocha é analista credenciado pela Apimec e atua há 20 anos como especialista na avaliação de companhias listadas na bolsa, para o Valor Econômico

