O Brasil já fez os deveres de casa
O mercado de capitais, em grande parte, dá o tom da conjuntura econômica. Em março de 2008, o índice Bovespa chegou a 73.516 pontos. Em outubro de 2008, caiu para 29.435 pontos, como reflexo da crise econômica internacional. Em janeiro de 2010, parecia já ter recuperado o fôlego e chegou a 70.729 pontos. Agora, em maio, caiu novamente para 58.192 pontos, desta vez em função dos desajustes das economias europeias, tendo a Grécia como principal referência.
A questão fundamental é o déficit público e, por conse- quência, a dívida pública. A Itália, a Grécia e a Irlanda, por exemplo, têm dívidas públicas superiores ao valor do PIB de um ano. Mas economias avançadas como a do Japão também. Até a Alemanha, cujo déficit fiscal é quase compatível com as exigências acordadas na União Europeia, discute um orçamento para 2011, com cortes elevados.
Segundo o Fundo Monetário Internacional, o mundo deverá ter um déficit público, em 2010, de 6% do produto mundial bruto. Em 2007, era de apenas 0,3%.
Para cada país existe uma explicação diferente, mas a justificativa mais comum para os gastos públicos exuberantes e a dívida pública crescente, desde 2008, é a intervenção do Estado na atividade econômica, em função da crise, socorrendo o sistema financeiro. Os Estados Unidos são o principal exemplo.
Na realidade, este é o custo da crise desencadeada em 2008. É, obviamente, um custo menor do que a omissão do Estado. Basta comparar com a crise de 1929. Aquela foi extraordinariamente mais longa e mais penosa. O que fazem os Estados, agora, é exatamente aquilo que se aprendeu com a grande crise. O Brasil, neste cenário, saiu na frente. Na década de 1990, fez um saneamento do sistema bancário. Isto teve um custo. Aumentou a dívida pública. Exatamente como fizeram recentemente os Estados Unidos e algumas economias europeias. O custo é o mesmo. Déficit público e dívida pública.
É claro que a estabilidade macroeconômica resultante dos ajustes feitos na década de 1990 não é a única justificativa para sustentabilidade do crescimento da econômica do Brasil, atualmente. Deve-se observar que a política monetária do Banco Central, por vezes criticada por ser excessivamente conservadora e que é praticada desde aqueles tempos, faz parte desse processo, assim como, também, um conjunto de outras políticas implementadas pelos diferentes governos.
O que o mundo está fazendo o Brasil já fez, na década de 1990. A dívida pública líquida do Brasil fica próxima de 42% do PIB. Segundo o Banco Central, o déficit público nominal, em 2009, foi de 3,34% e o superávit primário, de 2,06% do PIB. Não é nada maravilhoso, mas é administrável, e o País pode continuar crescendo sem necessidade de grandes ajustes. Os deveres de casa que estão sendo cobrados das economias avançadas o Brasil já fez.
– por Vilmar Anderle, economista / artigo publicado no A Notícia

