Motivação no trabalho depende dos dois lados
Empresas precisam fazer sua parte. Mas nenhuma conseguirá motivar um funcionário se dentro dele próprio não brilhar, por natureza, o facho potente da luz da automotivação.
Palestras motivacionais de fato motivam ou possuem apenas força lúdica momentânea estimuladora de uma nova linha de ação do indivíduo? Várias empresas inscrevem seus funcionários em eventos divulgados como “motivacionais” (externos ou in company) na expectativa de que todos saiam desses encontros cheios de gás para enfrentar os desafios do dia a dia. Será que, no dia seguinte, a motivação da moçada que participa de um desses eventos aumenta mesmo?
Imaginem a seguinte situação: o que acontece com a bateria do seu automóvel, quando não possui energia suficiente para fazer o motor funcionar, e recebe uma carga extra? Ela é ativada e ganha força suficiente para acionar a ignição e fazer operar as engrenagens mecânicas do carro. Mas até quando?
Grosso modo, qualquer pessoa que participar de uma boa palestra motivacional (algumas são uma piada!) sairá do encontro “cuspindo fogo”, pronta para “incendiar o mundo”. Garra total. O problema é que a realidade dentro de muitas empresas é, permitam-me usar um termo um tanto enviesado, broxante!
Em outras palavras, tudo o que o participante ouviu sobre motivação na respectiva palestra acontece de modo exatamente contrário no ambiente onde ele trabalha – até porque, destaque-se, identificar o que de fato motiva as pessoas não é tarefa tão simples assim (Abraham Maslow, o “pai” da Teoria das Necessidades Humanas, que o diga!).
Clima hostil, chefias metidas a besta, objetivos e metas surreais, pressão que faria Sísifo desmaiar. Aviso aos navegantes: Sísifo, trágico personagem da mitologia grega, foi condenado a levar uma enorme pedra ladeira acima – mas toda vez que ele chegava ao topo, a pedra rolava morro abaixo, e o infeliz precisava recomeçar tudo … e isso eternamente.
Nenhum estímulo motivacional externo resiste a fofocas, competição interna acirrada, puxadas de tapete, remuneração defasada, grau zero de perspectivas de progresso profissional. Enfim, como se sentir motivado dentro de uma pequena sucursal do Inferno descrito por Dante?
De fato, as forças exógenas, isto é, os impulsores positivos externos que poderiam criar bons motivos para o funcionário se sentir movido/motivado para a ação, acabam sendo anulados por redutores negativos existentes nessas empresas. Dentre esses redutores negativos podemos destacar:
1) Monólogos que substituem o diálogo: o “chefão” fala e todos teem de concordar. As pessoas que ali trabalham não possuem voz ativa. Não são ouvidas; logo, sentem-se frustradas e desvalorizadas como profissionais. É a empresa do “cumpra-se!”, porque a diretoria assim o disse.
2) Inexistência de um quadro de carreira. Quem trabalha ali não vislumbra como galgar os degraus de uma carreira promissora. Para piorar, quando surge uma oportunidade interna, o que a empresa faz? Recruta no mercado externo um candidato em vez de dar oportunidade de crescimento a quem já integra seu quadro de pessoal.
3)Remuneração incompatível com a complexidade e a responsabilidade inerentes às funções de um dado cargo (exige-se demais, paga-se “de menos”).
4) Perfil pessoal incompatível com as características técnicas e comportamentais exigidas pelas atribuições específicas do cargo. Isso, aliás, revela erro crasso no processo de seleção de pessoal. Diga-se de passagem que nenhuma palestra motivacional, por melhor que seja, conseguirá motivar alguém cujo perfil seja inadequado para o cargo que ocupa.
Há, ainda, um agravante: algumas palestras bombasticamente divulgadas como “motivacionais” são ruins de doer: elas não passam, na verdade, de um amontoado de frases feitas, tonitruantes, repetidas ad nauseam, costuradas com filosofismos inócuos, oriundos do “pensamento positivista” mais superficial e mesmo tolo.
Por último, mas não menos importante, convém refletirmos um pouco sobre as palavras ditas no passado pelo filósofo Schopenhauer (1788-1860): “O mais feliz dos homens é aquele que tem o bastante em sua riqueza interior e requer pouco ou nada de fora para sua manutenção”.
Numa paráfrase ao dito do grande pensador, nenhuma empresa conseguirá motivar qualquer funcionário se dentro dele próprio não brilhar, por natureza, o facho potente da luz da automotivação. De fato, se a pessoa for vazia por dentro, nada será capaz de movê-la em direção às mais belas realizações da existência humana.
Ah, sim. O dia seguinte? Nesses casos, “tudo continuará com dantes no quartel de Abrantes”.
Por isso vale a pena avaliar melhor que tipo de treinamento e palestras motivacionais virão de fato a somar – e se não é o caso de outras medidas psicopedagógicas serem também implementadas com urgência no contexto organizacional.
* por Luiz Oliveira Rios, empresário e colunista do Diário do Comércio oliveira.rios@hotmail.com / artigo publicado no Diário do Comércio

