Microcrédito e inclusão social
A onda da globalização e do desenvolvimento sustentável está trazendo ao debate uma instigante questão no meio empresarial: como conciliar os objetivos de lucro e ao mesmo tempo elevar a qualidade de vida dos pobres de todo o mundo, respeitar a diversidade cultural e conservar a integridade ecológica? Modernos gurus da administração como Philip Kotler, Stuart L. Hart e C.K Prahalad se alinham à tese e ao desafio de pensar criativamente um novo desenho e um novo papel para as empresas como agentes transformadores da realidade social no sentido do bem comum. Prahalad, em seu livro A riqueza na base da pirâmide, propõe a quebra do paradigma de que o pobre é responsabilidade do Estado. Não se trata de filantropia ou responsabilidade social. O autor propõe uma nova visão (capitalismo de inclusão), que transforme pobres em consumidores ativos, informados e participativos. Justifica que há no mundo quatro bilhões de pobres, que representam um poder de compra de US$ 5 trilhões, que podem ser a força motriz da próxima etapa global de prosperidade econômica. O Papa Francisco, em sua recente Evangelii Gaudium, exorta que “o crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econômico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição de rendas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo”. O microcrédito é uma importante ferramenta de alavancagem de negócios na base da pirâmide (BP). Nesse sentido, é emblemático o case do Gramenn Bank de Bangladesch (Índia), cujo fundador, Muhammad Yunus (o “banqueiro dos pobres”), foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz de 2006.
No Brasil, na época do governo FHC, o microcrédito recebeu impulso direto do Bndes através do Programa de Crédito Produtivo Popular, função transferida depois para o Banco do Brasil e Caixa Federal com o governo Lula. O primeiro tinha o mérito de estar atrelado a programas de capacitação do empreendedor, mas o juro das operações era alto. O atual tem mais capilaridade, custo menor, mas é descasado de ações de capacitação. O microcrédito merece, portanto, ser reavivado como ferramenta transformadora de inclusão econômica e social na BP.
Nadir Andreolla – Administrador e consultor empresarial

