Já não se fazem assembleias e acionistas como antigamente
Recentemente, os supermercados on-line Ocado realizaram sua primeira assembleia geral anual. Quantos acionistas você acha que compareceram? Apenas uma mulher solitária. Pouco tempo atrás estive na assembleia geral da companhia onde sou uma diretora não executiva. Foi mais ou menos a mesma história. Estávamos todos lá, 11 diretores, vestindo nossas melhores roupas, prontos para responder perguntas delicadas. Chá e café foram servidos, além de biscoitos e água, com e sem gás. Mas as fileiras de bancos à nossa frente estavam quase que totalmente vazias.
Essa experiência surreal deixou uma sensação parecida com a de Charlie Chaplin em “Em Busca do Ouro”, quando ele convida sua amada para jantar, prepara a refeição, espera, mas ela não aparece. É algo patético ficar sentada em uma plataforma elevada, pronta para fazer uma apresentação e constatar que ninguém está interessado. Compare isso com a primeira assembleia geral de acionistas da qual participei como jornalista. O ano era 1987 e a British Gas havia aberto o capital na bolsa de valores. Mais de três mil investidores compareceram (número que na época foi visto como baixo) e ao longo da reunião de três horas uma mulher vestida a rigor reproduzia as palavras do presidente do conselho de administração na linguagem dos sinais, caso alguém na plateia tivesse problemas de audição.
Um quarto de século depois, tantas empresas vêm realizando assembleias gerais em salões quase vazios que elas começaram a imaginar se esse exercício tem algum sentido. Elas reclamam que as assembleias são ridículas – um desperdício de dinheiro, tempo e esforço. Os diretores se preparam para responder a perguntas duras, mas ninguém aparece para fazê-las.
c. Se você pensar nelas como teatro, elas fazem uma peça como “Esperando Godot” parecer cheia de ação. “Aqueles a favor da renomeação da Ernst&Young como auditoria… Votos a favor? Votos contra?” Isso sempre foi chato, mas agora não tem mais sentido, uma vez que os votos são sempre feitos por procuração, antecipadamente. A coisa mais difícil de entender é por que as pessoas comparecem. Pensei nisso por algum tempo e encontrei quatro motivos.
O primeiro é porque elas estão genuinamente interessadas. Antes havia uma espinha dorsal formada por investidores sérios e aposentados, que sempre compareciam às assembleias. Mas enquanto grupo, eles estão desaparecendo. Em parte porque os pequenos investidores podem encontrar o que eles precisam na internet, mas também porque o tipo de investidor excêntrico que em 1997 participou de uma assembleia do banco Hambro e pediu, em latim, ao diretor financeiro para que ele sapateasse, é hoje uma raça em extinção. Já não se faz mais coisa antiga como antigamente.
O segundo motivo é a comida. Ela tem sido o segredo da popularidade persistente das assembleias de acionistas da Marks and Spencer. As 1.800 pessoas que fizeram fila diante do Royal Albert Hall para participar da assembleia do ano passado receberam sorvete de graça enquanto esperavam para entrar, com mais coisas boas esperando do lado de dentro. Para agir como incentivo, a comida precisa ser boa: um simples biscoito seco não é mais suficiente para colocar um único traseiro em uma única poltrona.
O terceiro motivo é o entretenimento, embora esse quesito infelizmente também esteja em queda. Os presidentes de conselhos de administração são hoje mais maçantes e figuras combativas como Tiny Rowland foram substituídas por homens bem comportados que leem roteiros preparados. Apenas Warren Buffett é digno de ser visto por ser o que é, mas ele também já é quase uma figura do passado.
Na ausência de um presidente de conselho carismático, a melhor opção é conseguir uma celebridade. A M&S colocou a ex-modelo Twiggy no palanque no ano passado, que agradou a plateia o tempo todo.
Com isso, sobra apenas um motivo sério para se comparecer a uma assembleia geral – reclamar. Especialmente na era de internet, é vital para todos que possuem uma parcela de uma companhia, ter uma chance por ano de olhar os diretores de perto e desafiá-los em qualquer coisa – salários, desempenho e mesmo (como no caso da M&S) sobre os motivos da não existência de camisolas tamanho 20 na loja em Camden Town.
Se esse é o verdadeiro propósito das assembleias gerais de acionistas, e a razão pela qual elas devem persistir, ele lança uma luz diferente sobre o baixo grau de comparecimento. Se ninguém aparece, isso não significa que a companhia não seja admirada e todo o exercício não tenha sentido. Significa que ela não está pagando salários altos demais aos seus executivos, nem poluindo muitos rios. Em todo caso, os diretores não precisam se sentir como Charlie Chaplin. Em vez disso, eles merecem abrir a água com gás e comer eles mesmos os biscoitos intocados.
* por Lucy Kellaway, colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira no jornal Valor Econômico

