Impressões de uma viagem aos EUA
Gostaria de compartilhar algumas impressões que vivenciei em maio. Fui convidado pelo Departamento de Estado a fazer uma visita técnica aos EUA, percorrer órgãos públicos, centros de pesquisa, ONGs e universidades para contribuir para a melhor compreensão da formulação da política externa americana. Foi realmente uma experiência fabulosa, da qual gostaria de destacar alguns pontos.
Um grande aprendizado foi sobre o papel que o Senado tem em política externa. Apesar de não ter prerrogativa de formular políticas neste setor, pode aprovar leis que interfiram diretamente nesta área. Este foi o caso quando o Comitê de Relações Exteriores ameaçou aprovar sanções unilaterais caso o governo Obama aceitasse algum acordo com o Irã que não previsse o fim do enriquecimento de urânio naquele país. Se essa ação fosse implementada, a Casa Branca perderia o apoio de China e Rússia às novas sanções multilaterais que seriam aprovadas no Conselho de Segurança da ONU.
Além disso, foi justamente com um brasileiro professor da National Defense University que entendi o porquê da restrição em deixar o Irã enriquecer o urânio a 20%. O investimento necessário em equipamento para chegar a este ponto é muito alto, mas para “dar o pulo” dessa pureza para os 95% necessários para uma bomba atômica é uma questão de um pouco mais de tempo e investimento. E um país passa do urânio de uso civil para uso militar. Com um grande detalhe, em todas as outras três rodadas de sanções aprovadas no Conselho de Segurança estava previsto que os iranianos teriam de parar o enriquecimento até de a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) comprovasse o uso civil do programa.
O motivo de relatar esses dados técnicos e políticos se deve à ação brasileira em aceitar o famoso acordo de Teerã, no qual tanto o Brasil quanto a Turquia apoiaram a decisão iraniana em continuar a enriquecer urânio a 20%. Aqui fica a questão do porquê desta atitude, uma vez que existe essa realidade técnica preocupante, que levou ao Conselho de Segurança a pedir o contrário por três vezes.
Outro ponto que chamou muita atenção foi o respeito americano pelo nosso programa de etanol. Muitos americanos disseram que o Brasil fez o que eles deveriam ter feito após o primeiro choque do petróleo em 1973, que é desenvolver esse combustível alternativo. Com o aquecimento global, o etanol é a fonte ideal para combatê-lo, e eles veem o programa brasileiro como o mais avançado.
Por outro lado, há várias propagandas na televisão contra a aproximação do presidente Obama com o Brasil, a fim de torná-los um grande comprador do nosso petróleo. O argumento é que os EUA não deveriam continuar a importar petróleo e sim passar a extraí-lo de regiões ahoje estão preservadas desse tipo de atividade. Ou seja, quem diz que há ameaça de eles virem “tomar” o pré-sal, ou está mal informado ou tem más intenções ao dizer isso.
Na volta, a primeira notícia que vi nos jornais foi que a falta de investimentos colocava em risco o futuro do etanol no Brasil. Isso depois de ter de importar este produto, além de gasolina, dos EUA! Ou seja, a maior ameaça ao nosso futuro não são os americanos e, sim, a nossa capacidade de nos planejarmos para o futuro. Uma das nossas maiores vantagens competitivas em uma economia de baixo carbono está em risco por falta de políticas governamentais.
* por Gunther Rudzit, professor da Sustentare Escola de Negócios / artigo publicado no A Notícia

