Hora de investir em educação
A China é uma enorme contradição. No primeiro semestre do ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do país levou-os à segunda colocação no ranking mundial, atrás dos Estados Unidos. É a primeira vez que uma nação emergente entra no seleto grupo das sete maiores economias do planeta. Os outros sócios deste clube são Alemanha, França, Inglaterra, Itália e, claro, Estados Unidos e Japão. O Brasil é a oitava nação mais rica do mundo.
A chegada da China à vice-liderança levanta uma discussão importante sobre como pensar o futuro do Brasil e as estratégias de ação para redução dos abismos sociais presentes na sociedade. Além de segundo país mais rico do mundo, a China é também o segundo país com maior número de pobres no planeta, perde apenas para a Índia. É um lado pouco divulgado da pujança chinesa, mas são 150 milhões de pessoas – quase um Brasil – que vivem com menos de US$ 1 por dia.
A contradição chinesa é ser um país rico de pessoas pobres. A renda per capita é de US$ 3,7 mil contra US$ 35 mil a US$ 46 mil das outras seis maiores economias do mundo. A renda per capita do Brasil é mais que o dobro da chinesa, mas, claro, infinitamente menor que a de Estados Unidos, França, Japão e companhia.
Por isso, os números chineses devem ser traduzidos com cuidado e merecem reflexão. Eles apresentam a diferença entre riqueza e prosperidade. O Brasil é a bola da vez, junto com Índia e China, para ocupar a vaga de locomotiva do mundo, mas não basta estar no topo.
É preciso gerar as condições necessárias para criar a prosperidade entre a população. Isso deve ser feito com políticas claras de incentivo à educação contínua. É necessário criar um contingente dezenas de vezes maior do que temos de técnicos e engenheiros, em suas diferentes especialidades, para suprir a expansão com qualidade.
A criação de uma base de profissionais compatíveis com a expansão dos setores da nova economia – tecnologia e serviços – também ajudará ao Brasil a ultrapassar outro desafio que será criado pela própria China. Nos próximos 20 anos estima-se que 400 milhões de chineses deixarão o campo para viverem nas cidades. Essa gigantesca onda de novos consumidores precisará de casas, de infraestrutura viária, etc. É isso que garantirá o crescimento do país pelas próximas décadas.
Isso também pode significar uma oportunidade ao Brasil. Ou uma ameaça. É preciso saber como enfrentaremos o desafio. Esses 400 milhões de chineses trabalharão nas indústrias e, como é de se supor que terão pouca formação técnica, irão para fábricas de produtos de baixo valor agregado. Assim, continuaremos a assistir à enxurrada de brinquedos, calçados e têxteis made in China, como também, artigos de alta tecnologia; porém, em menor escala em nosso mercado.
É nessa lacuna que o Brasil poderá crescer. Mantendo uma política clara de incentivo à educação. Na outra ponta, avançando sobre os custos de produção, modernizando a legislação trabalhista e apoiando uma maior abertura da economia. Nos próximos três, quatro anos, continuaremos com gaps de mão de obra altamente qualificada em vários setores.
E se as economias mundial e brasileira continuarem aquecidas, esse déficit permanecerá elevado. Por isso, é necessário, agora, incentivos para criação de novas instituições com foco em ensino técnico. São elas que proverão o País de mão de obra qualificada e elevarão a renda per capita, tornando o Brasil uma nação próspera e não apenas rica.
* por Alexandre Schaeffer, diretor de empresa de comércio exterior / artigo publicado no A Notícia

