Grande, mas nem tanto
O aumento da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (BC) em 0,50 ponto percentual ontem, para 8% ao ano, mantém o Brasil em posição de destaque entre as economias que praticam os juros reais mais elevados do planeta, mas neste momento a dois passos da liderança da liderança que ocupou teimosamente durante anos. Levantamento do portal MoneYou, coloca o juro real brasuca – descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses – empatado com o Chile na terceira posição. O juro real da dupla latina é estimado em 2,1% e superado apenas por 2,7% oferecidos pela China e 2,2% pela Rússia. Embora cinco anos tenham se passado desde o início da crise financeira global e os mercados já se movimentem ante a perspectiva de que o Federal Reserve reduza ou suspenda o programa de compra de ativos, 21 países, de um elenco de 40 monitorados pelo economista Jason Vieira, ainda operam com juro básico real negativo em decorrência da inédita expansão monetária – ferramenta de ação especialmente nas economias centrais contra os efeitos da crise subprime no sistema bancário e a favor da atividade.

No ranking das maiores taxas nominais praticadas entre os principais países do mundo, o Brasil, com 8% ao ano, ocupa a quarta posição atrás da líder Venezuela, que paga 15,67% ao ano, Argentina com 11,38% e Rússia com taxa de 8,25%. De 40 mercados listados, 19 ainda mantêm o juro básico nominal entre zero e 1% ao ano, sendo que a média geral é de 2,92% ao ano.
Em 2008, quando a crise global estava no horizonte, a taxa Selic nominal oscilou entre 11% e 13% e o Brasil desbancava a Turquia e seu juro nominal superior a 16% ao ano da primeira posição do ranking internacional dos recordistas em juros reais. Disputando essa perversa liderança cabeça a cabeça, o juro real de ambos os países rondava 6,7%, mas a Selic ficou à frente. Por um triz.
Hoje, a Selic nominal está pouco acima do recorde absoluto de baixa (7,25%) e a Turquia convive com juro nominal de 4,50% que, mostra o levantamento da MoneYou, apanha da inflação. Em termos reais, o juro em Istambul é negativo em mais de 2% e ocupa a 37ª posição no elenco dos 40 participantes, onde a lanterna está com a Venezuela que afugenta investidores.
Neste ano, 13 economias emergentes e desenvolvidas já alteraram a política monetária e cortaram os juros na tentativa de puxar a atividade econômica. A Turquia é uma delas. Brasil e Egito são exceções, elevando suas taxas básicas.
Em tempo: há duas semanas, o Bank of America Merrill Lynch divulgou um levantamento informando que desde meados de 2007 os bancos centrais de todo o mundo cortaram as taxas de juros mais de 500 vezes. Por aqui, seguimos na contramão. Mas com fé e a presidente Dilma Rousseff no timão retornaremos a essa curiosa e alentadora estatística – é uma questão de tempo.
Angela Bittencourt – editores especializados na cobertura de economia e finanças em Valor Economico

