Dirigir é socialmente imposto!
O ser humano tem, por natureza, várias necessidades biológicas: ele precisa comer, beber, dormir etc. Entretanto, o ato de se deslocar sempre foi uma necessidade social, afinal, se um indivíduo quer ir para o trabalho, ou se divertir, reflete algo relacionado à interação com outras pessoas e instituições.
A partir desta lógica, pode-se pensar sobre a mobilidade urbana, principal problema que afeta as nossas cidades, como no caso de Joinville. A cidade não é estática, ela está sempre em transformação. Os lugares, os atrativos, os agentes produtores do espaço urbano e a economia mudam, enquanto que as necessidades das pessoas são as mais variadas que possamos imaginar. Como se locomover dentro da cidade diante de tantas alternativas mutáveis? E ainda: como atender a todas estas necessidades, à medida que a cidade cresce e o deslocamento pode ficar cada vez mais limitado?
Para isto surgiu o maior fetiche de toda a economia mundial, o automóvel. É ele que vai substituir os atos de caminhar e de andar de bicicleta (que só atendem com efetividade pequenas distâncias). O automóvel, além de ser a base de toda a economia moderna, dá ao ser humano o controle de suas necessidades sociais por meio do domínio do tempo e do espaço. O que antes era impossível vira realidade com o automóvel. Podem-se fazer diversas coisas em diversos lugares em um curto espaço de tempo. É um símbolo de poder, de status, afinal, quem não gostaria de fazer o que quisesse na hora em que preferisse?
Como discutir transporte coletivo neste panorama? Horários limitados, alta tarifa, ele não para nas garagens das casas das pessoas, é cheio de outros indivíduos de diferentes grupos sociais, não tem ar-condicionado, é barulhento e tem bancos duros. Além de não ter o domínio do tempo (depende-se sempre da tabela de horários), o coletivo não atende a todas as necessidades, só o individual.
É devido a este fato que as autoescolas cada vez mais têm alunos querendo aprender a dirigir, e a cidade bate recorde no número de veículos. E cada vez mais os órgãos públicos pensam em elevados, duplicações, binários, eixões, pontes e túneis – como sempre fizeram – perpetuando o ciclo e fazendo com que cada vez mais o ato de dirigir um automóvel (e, consequentemente, ter um veículo próprio em detrimento do coletivo) seja socialmente imposto, não porque o cidadão queira, mas porque é induzido a tal ato. É a única alternativa para atender àquilo que foi e será socialmente construído.
* por Charles Henrique Voos, cientista social, mestrando em Urbanismo (UFSC) – charleshenriquevoos@gmail.com / artigo publicado no A Notícia

