Delegar ou não delegar, eis a questão!
O meu sonho, e o da torcida brasileira inteira, é ter alguém para quem possamos entregar de verdade uma tarefa, virarmos as costas e recebermos mais adiante um trabalho, no mínimo, muito bem feito! No máximo tão bom quanto nós mesmos faríamos! (… eu sei, eu sei! pretensão e água benta, cada um usa quanto quer!)
Mas, afinal de contas, que pretensão é esta?
Cada pessoa traz uma gama de conhecimentos, de habilidades, interesses e comportamentos que a habilitam a realizar algum tipo de tarefa. Uns são ótimos nos trabalhos manuais, hábeis artesãos que moldam ferramentas ou obras de arte. Outros são exímios na condução de pessoas e gerenciam equipes altamente qualificadas. Outros ainda produzem de maneira estupenda quando sozinhos trabalham, outros quando se inserem em um grupo.
Conseguir juntar estas pessoas capazes é uma obra em construção – eterna, diga-se de passagem, pois quando o time esta afinado, alguém cobre o passe e lá se vai uma parcela fundamental para o sucesso que era garantido.
E é neste cenário que dois importantes “estranhos” se apresentam: se preparo alguém, ele vai embora; se não preparo fico atolado na tarefa e não tenho quem faça as coisas acontecerem. Ou seja: o risco existe em ambas as situações e por isto vou me permitir afirmar que a primeira opção é a melhor. Ou seja, preparar as pessoas é tarefa primeira!
Explico: é melhor, porque enquanto capacito alguém também aprendo; porque o outro se sente valorizado e retribui com ideias, sugestões, fazeres diferenciados. Também, ao sentir-se reconhecido como alguém capaz, reconhece no outro a habilidade de formar as pessoas e sente em si o desejo de crescer e um dia também formar sua equipe. E é ainda a melhor opção porque, ao distribuir, multiplico e gradativamente ganho espaço e tempo para buscar novos desafios.
Ter equipes confiáveis e capacitadas faz toda a diferença, mesmo quando se tornam questionadoras e às vezes até “chatas” a respeito das nossas ideias e orientações. É… os filhos crescem… já dizia minha avó!
Claro que nem tudo é assim tão simples, até porque nós também erramos ou nos deixamos levar pela necessidade ou pela pressa. Delegar requer tempo, investimento e um olhar atento ao outro e suas atitudes, maneira de fazer as coisas, responsabilidade, senso crítico e capacidade de relacionamento.
Pessoas inteligentes e capacitadas fazem parte do sonho de consumo de dez em cada dez gestores; mas também é preciso certa dose de tolerância, pois nem todos têm todas as qualificações que desejamos e às vezes, infelizmente, não tem o interesse necessário para receber e dar conta de responsabilidades que ultrapassem o trabalho diário, repetitivo, seguro.
Permito-me falar por experiência própria: tive a sorte de encontrar gestores ao longo da minha trajetória profissional que jogaram responsabilidades no meu colo, foram desafiadores e com quem aprendi muito. Também tive a sorte de encontrar profissionais a quem ensinei, exigi e cobrei responsabilidades e resultados, mesmo antes de eles estarem prontos.
Sinto orgulho quando, tempos depois, reencontro estas pessoas e vejo como elas me ajudaram a ser quem sou e como eu as ajudei a serem que são.
Experimentem delegar. Sem medo, principalmente, de se tornarem dispensáveis por alguém, de fazerem por você ou melhor do que você. Faz parte da vida a sucessão, assim como faz parte deixar aqueles que ajudamos a crescer, partir.
* por Lise Steigleder Chaves, consultoria em gestão de pessoas / artigo publicado no A Notícia

