Crise financeira, segundo estágio
No final de 2007, quando os primeiros sinais da crise dos financiamentos de moradia começaram a estourar nos Estados Unidos, economistas independentes assinalaram que estaria nascendo uma nova e ainda mais gigantesca bolha no sistema financeiro americano. Com inevitáveis repercussões na Europa. Desde lá, passando pela “quinta negra” de 15 de setembro de 2008, no primeiro crash das bolsas de valores, a crise só tem se agravado e adquirido conotações mundiais. À exceção do Brasil e China (ainda), os demais países sofrem os efeitos do quase colapso da economia americana e do sufoco da União Europeia.
Em 2008, foi dito e repetido que a crise seria longa, com desdobramentos de uma década. Muitos riram, outros torceram o nariz e iluminados chegaram a desdenhar, dizendo que a crise seria “marolinha”. De fato, o Brasil continua na contramão de tudo, gastando os tubos em salários e mordomias, enquanto se agiganta o déficit das contas externas. Os brasileiros estão gastando 70% mais em viagens ao exterior e as folhas de pagamento dos governos (nas três esferas, além do Judiciário e Legislativo) só engordam mês a mês as pesquisas de dona Dilma. Estamos em plena gastança eleitoral, apesar dos sinais evidentes de que a crise será longa e abrangente. Ou seja, pode nos alcançar.
Gregos, portugueses, espanhóis e britânicos não entenderam nada da crise e continuam gastando, além de engordando o Estado – providência que a todos socorre o tempo todo. Quando os bancos tremeram, o Estado veio e despejou trilhões de dólares, inclusive na terra do capitalismo, os Estados Unidos. Agora, na segunda fase da crise, o Estado-mãe recebe a conta. Salários, aposentadorias, investimentos, seguro-saúde e seguro-trabalho, tudo está sendo cortado, em nome de algum controle sobre o déficit público e na doce expectativa de que a inflação será contida. Não será em lugar nenhum, nem nos Estados Unidos, onde o juro oficial é zero. A Europa que se prepare e, com ela, o resto do mundo. Com os cortes, o desemprego, o congelamento de aposentadorias, a redução do consumo, o povo virá à rua, como na Grécia, na França, em Portugal.
No Brasil, que, de fato, vive situação diferente – salvo possível manutenção do consumo interno pela estabilidade macroeconômica alcançada desde o nascimento do real, em 1994 – a crise americano-europeia nos alcançará em meados de 2011. Pode não chegar, caso se reduza a gastança, ampliando os ganhos reais de salário e renda registrados nos últimos anos, em razão da política econômica de FHC, preservada nos quase oito anos de governo Lula. São os méritos inegáveis de Lula, que explicam o sucesso inigualável do seu governo de dois mandatos. Sucesso tão grande e sólido, que pode garantir com razoável conforto a vitória de sua indicada, já no primeiro turno. Assim, com margem segura de votos, se encaminha a corrida presidencial, pois os dividendos do sucesso econômico serão convertidos numa avalanche de votos daqui a pouco. Os tucanos começam a perceber que estão em beco sem saída, pois não há discurso possível contra Lula. Acomodaram-se em oito anos de oposição nenhuma e se descobrem sem lenço e sem documento para enfrentar Lula.
Se por aqui não teremos “marolinha” na política, com a manutenção do PT e do PMDB no poder, lá fora chegou a hora de a onça beber água. Serão três a quatro anos de turbulência e desassossego, cujo primeiro ensaio acontece na Grécia que, assim como Portugal, Espanha, Inglaterra e demais países da União Europeia, gastaram o que não tinham, viveram como não podiam e terão agora o pão que o diabo amassou. A crise de 2007/2008 não chegará a seu final antes de uma década. Não antes de 2016, ano das Olimpíadas. Possivelmente no Rio, ao custo de milhões de dólares, com propinas de outros tantos. Inimaginável em qualquer lugar do planeta, menos no Brasil.
* por Apolinário Ternes, historiador e jornalista – aternes@terra.com.br / artigo publicado no jornal A Notícia
