A história se repete?
Geisel, luterano austero e leitor da Bíblia, habituado a caminhar ao redor da piscina com papéis oficiais em mãos, resolveu escolher seu sucessor. Enfrentava problemas gravíssimos como inflação, déficit público e vastos bolsões de miséria com planejamento incipiente, desorganização política e desconexão com a sociedade, numa concepção equivocada de que o Brasil “era uma ilha de prosperidade” em meio à crise do petróleo que desorganizou a economia mundial nos anos 1970.
Em 1974, governava o País com mão de ferro e decidiu que João Baptista Figueiredo seria, “sem desdouro para os demais, o melhor homem para governar este País”. O Congresso, não exatamente de acordo com as melhores tradições, simplesmente referendou o nome escolhido, araponga-mor do governo e que continuou a distensão política lenta e gradual. Odiava seu vice e, ao final do mandato, saiu pela porta dos fundos para não transmitir o cargo de presidente a Sarney em 1985. Figueiredo, que afirmou que preferia “cheiro de cavalo a cheiro de povo”, morreu sozinho em sua chácara, e sua memória representa muito pouco para este País.
Algumas lições do episódio são a inutilidade da escolha autoritária e da pretensão messiânica de dirigir e comandar tudo, dedicando-se com furor à chamada “microadministração”, desprezando mecanismos democráticos e complexidades de um país tão vasto.
Interrompamos o flashback. Em 2010, o Brasil tem reservas em moeda forte suficientes para conter ataques à moeda nacional, o Plano Real mantém inflação e déficit público sob controle; o caixa dos Estados e municípios submete-se à Lei de Responsabilidade Fiscal; o emprego sobe e, com as principais commodities em alta, temos um cliente voraz pagando por altíssimos volumes.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, beneficiado pela conjuntura favorável, decide lançar seu sucessor. Como em 1974, quando o voto vinha majoritariamente dos grotões, estimulado por modificações na lei eleitoral feitas sob medida para legitimar escolhas do Executivo, agora vem especialmente do Nordeste, beneficiado por transferências de renda para os mais pobres.
Karl Marx complementa algo já dito anteriormente por Hegel: a história se repete, primeiro como tragédia; depois como farsa… Ou talvez algo pior.
* Miro Hildebrando, doutor em economia – vbrando@uniplac.net / artigo publicado no A Notícia

