2010 – cuidados necessários
Nos últimos sete anos e quatro meses, o Brasil não teve um único pacote econômico. Atravessou uma tempestade financeira mundial sem tomar qualquer medida inspirada no pânico. Teve o salário mínimo aumentado em 45% de março de 2003 para cá (em termos reais) sem causar, com isso, nenhum desequilíbrio macroeconômico. Passou a ser um grande polo para investimentos internacionais. Buscou a construção de reservas internacionais de US$ 235 bilhões, manteve a inflação domada e não se meteu em nenhuma confusão maior. É muito e, sobretudo, é o certo.
De outro lado, não podemos esquecer que não existe país desenvolvido com 50% da população desprovida de acesso a redes de esgoto, 70% das estradas de rodagem sem condições sequer razoáveis de tráfego, índices de qualidade educacional baixíssimos, índices de criminalidade altíssimos, irracionalidade sistêmica na administração pública, carga tributária de 37% do PIB – enquanto a média mundial está em 25% –, 102% de tributos sobre a folha salarial – enquanto a França tem 79%, a Alemanha, 60%; e o Japão, 12% – e tudo o mais o que já se sabe há tanto tempo e que há tanto tempo não muda.
Nesse contexto, duas são as principais preocupações para 2010 – inflação e emprego. O nível de utilização da capacidade instalada da indústria está em 84%. As vendas do varejo estão num patamar superior ao período pré-crise. O consumo das famílias cresce há 24 trimestres consecutivos na comparação com o mesmo período do ano anterior – não houve queda nem com a desaceleração da economia em 2009.
Assim, economia aquecida leva a demanda crescente. E com os investimentos ainda limitados a menos de 18% do PIB, naturalmente haverá um descompasso entre oferta e procura, o que pressionará os preços. O Banco Central deve atuar na taxa de juros para conter, então, eventual sintoma de inflação.
De outro lado, há um paradoxo que o País ainda está longe de solucionar: milhares de desempregados pouco qualificados em busca de um lugar no mercado de trabalho – são 6,5 milhões, e a cada ano, 1,7 milhão entra no mercado versus a carência de profissionais que possam desempenhar as tarefas de uma economia mais moderna.
Muitos são os indícios de que a oferta de mão de obra e a demanda das empresas estão ficando perigosamente desequilibradas. Conforme estudo da CNI, a demanda por profissionais de nível médio cresceu 200% no Brasil de 1995 a 2005. O estudo concluiu que sempre que o País cresce a taxas superiores a 4% ao ano, faltam braços. E as previsões mostram que o País terá crescimento econômico entre 4% e 5% nos próximos cinco anos.
Outro bom exemplo se dá na área de engenharia – calcula-se que a cada US$ 1 milhão investido na economia, uma vaga de engenheiro seja criada. Para o Ipea, mantidas as atuais condições econômicas, podem faltar até 250 mil profissionais na área em 2015, visto que estimativas conservadoras indicam que haverá investimentos de US$ 300 bilhões em infraestrutura no Brasil nos próximos cinco anos.
Para se ter uma ideia, na China formam-se por ano 400 mil engenheiros que representam 38% do total de formandos; na Índia, são 300 mil, que representam 21% dos formandos; na Coreia, são 80 mil: 30% dos formandos; enquanto no Brasil, são 32 mil engenheiros por ano, o que equivale a apenas 10% do total de formandos do País.
* por Cleverson Siewert, Secretário de Estado da Fazenda / artigo publicado no A Notícia

