O arbusto que esconde a floresta
A natureza humana é muito interessante. Temos a tendência de sempre buscarmos nos associar aos grandes. É o sonho de toda empresa, micro, pequena, média e até das grandes. Quem, com o espírito empreendedor natural ou por forças circunstanciais iniciou um empreendimento sem sonhar em fornecer serviços ou produtos para uma grande empresa? É um fato que por vezes funciona à excelência, mas na maioria das vezes o sonho pode se tornar um pesadelo. A concentração em poucos ou mesmo um único cliente grande pode não ser a solução sustentável para qualquer empresa. Os preços são apertados, as exigências de padronização e as quantidades podem tornar a operação pouco lucrativa ou até dar prejuízos grandes, pela quantidade de investimentos, pelas baixas margens operacionais, pelos altos impostos ou até por cancelamentos de pedidos.
Outro sonho que nem sempre termina bem é o de exportar. Não que seja um sonho no sentido pleno, de ser inatingível, distante ou impraticável. Nada disso. O ponto a ser notado é que nada neste mundo está estático, tudo está em movimento. Desta forma, os conceitos, práticas e condições pontuais da economia se alternam e se substituem. Exportar não deve ser um objetivo fixo em si. As empresas objetivam lucros, criam empregos, culturas, valor e riquezas. Assim sendo, o objetivo é produzir e vender, com lucro.
Se o ato de exportar for lucrativo, exportamos. Se não for, vendemos dentro do País. O valor do dólar respeita regras e leis de mercado, que, por sua vez, são baseadas em forças relativas de oferta e demanda e encontram lastro na própria robustez ou fraqueza de sua economia. O dólar americano representa hoje a fragilidade momentânea da economia americana, está caindo, perdendo valor contra todas as moedas e não somente contra o real. A China apresenta uma vantagem competitiva de custos e agilidade de exportação que compete diretamente com todos os outros países. Então, com dólar baixo e com sinais de que cairá mais, com a China concorrendo centímetro por centímetro em cada produto, o que fazemos? Reclamamos que o dólar está fraco? Iria resolver de fato o dólar a R$ 2,10 ou R$ 2,30?
Não, de fato. Temos que retirar o arbusto de nossa frente para podermos enxergar a floresta de parceiros e oportunidades que existem, na esquina de baixo, na rua de baixo, na cidade ao lado, no Estado ao lado, mais ao sul ou ao Norte. Internamente, dentro do Brasil, estamos nivelados. Todos nós temos a mesma base de impostos, a mesma moeda, a mesma potencial mão de obra e seus custos. Então, estamos dentro do mesmo patamar e universo de vantagens competitivas e comparativas.
Segundo do IBGE, para 2008, a cidade de Joinville possui 18.267 empresas. Destas, somente 31 empresas são muito grandes, com mais de 500 funcionários. Outras 30 empresas são grandes, com um número de 250 até 499 funcionários. Muito bem, qual seria a nossa floresta? O universo de 18.206 potenciais parceiros de negócios. Imaginem o resto do Brasil? São mais de 7 milhões de empresas micro, pequenas e de médio portes, que representam 99,2% de todas as empresas existentes no país.
Se esta floresta ainda não for suficiente, que tal olharmos para nossos vizinhos latinos, que nos enxergam como o grande parceiro a ser conquistado, substituindo o sonhado grande parceiro comercial, EUA, como mostrou o resultado de pesquisa recente? Podemos olhar para dentro, antes de buscarmos soluções no exterior, este é o equilíbrio e a solução econômica do momento. Quando o mundo voltar ao normal, revisaremos se exportar é o que importa. Nossa economia, nossa lucratividade, nossos empregos, isso é o que importa.
* Ricardo Della Santina Torres, economista e professor de finanças da Sustentare Escola de Negócios de Joinville / artigo publicado no A Notícia

