Refluxo da maré
Com a morte de Bin Laden, espera-se que a maré terrorista arrefeça seu ímpeto destrutivo. Afinal, parafraseando Emerson, uma instituição, ainda que criminosa, é a sombra alongada de um homem – que havia desenvolvido um vasto esquema de financiamento para múltiplos atentados ao redor do globo. Seu desaparecimento é uma grande vitória do governo Obama.
Mas como vai o mundo? A distância entre os ricos e os chamados emergentes, diminuiu.
O G7, o grupo dos ricos, foi substituído pelo G20, mas o que temos hoje, no lugar deste, é simplesmente o nada. Os ricos estão ocupados tentando se desvencilhar de uma ciclópica crise financeira iniciada nos EUA, em 2008. Países antes notoriamente irrelevantes – como a Índia, Brasil e África do Sul – agora compõem, com China e Rússia, os Brics, responsáveis por uma nova onda de dinamismo econômico.
Em artigo do “Estadão” (1º/5), Ian Bremmer e Nouriel Roubini sustentam que o investimento estrangeiro especulativo não será tratado de maneira adequada pela simples razão de que não há ninguém com autoridade moral para fazê-lo: emergentes temem que os países ricos queiram fazer uma reforma financeira que os preserve – justamente os responsáveis pela geração da maior crise depois do crack de 1929.
Antes de 2016, ano em que, segundo o FMI, a China ultrapassará os EUA na geração de bens e serviços – com um PIB de US$ 19 trilhões – haverá o fim da pax americana, um período em que os EUA eram responsáveis pela segurança universal. Agora, sem disposição para tanto, suas preocupações se concentram na divida pública federal (US$ 15 trilhões) e em como evitar a recessão econômica e o desemprego de 10%.
Não vamos falar de acordos climáticos, onde impera a balbúrdia. Conflitos também agitam a Organização Mundial do Comércio: China e EUA se acusam mutuamente e todos vociferam contra o protecionismo (ao tempo em que a União Europeia concede pesados subsídios para seus agricultores e os americanos taxam o etanol brasileiro). O Brasil, depois de liquidar a Alca (ganhando exatamente nada com isso) e vencer batalhas na OMC relacionadas com tarifas alfandegárias, acusa a política monetária americana de “afrouxamento quantitativo” (classificada de “tola” pela usual franqueza dos alemães) de provocar o que os chineses fazem há muito, isto é, desvalorizar a moeda para aumentar seus níveis agressivos de comércio.
Em meio a tantas incertezas, a boa nova do refluxo terrorista certamente trará alento aos combalidos americanos, os principais ameaçados pela Al-Qaeda, mas se isso vai significar mudanças para melhor no cenário econômico – aqui e lá fora – é uma questão totalmente aberta.
* Miro Hildebrando, doutor em economia – hggbrando@gmail.com / artigo publicado no A Notícia

