O poder dos bancos
A Europa parece se despedir dos sonhos de integração. O projeto da comunidade europeia, meio século depois, se espatifa diante do salve-se quem puder que se instala na periferia do reino – Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. A crise se torna mais aguda, com passeatas de milhares de jovens que não terão empregos, desempregados e aposentados que ficarão sem ajuda e de imigrantes impedidos da “livre circulação”.
Como decorrência da bolha imobiliária nos Estados Unidos em 2007, até hoje os efeitos econômico-financeiros se espalham por todo o planeta, à exceção da China, talvez do Brasil. Agora, até norte-americanos estudam a nossa língua de olho nos empregos no Brasil. Na Europa, não é diferente. O sonho de qualquer trabalhador qualificado é partir para a Ásia ou para o Brasil, Chile, Colômbia e até mesmo Argentina. Os emergentes continuam a bola da vez.
A crise de 2007, cujos efeitos serão sentidos por muitos anos, como dito neste espaço naquela época, é fruto direto da ação abusiva e inconsequente de banqueiros americanos e europeus. Bancos sólidos quebraram e o Estado os salvou, injetando bilhões de dólares e de euros para evitar o que é ainda considerado um holocausto global: a crise sistêmica da área financeira. Assim, nada impede que, superados os atuais níveis de colapso em economias da Europa e mesmo da americana, os banqueiros joguem o planeta em nova bolha de crédito. Pelo que se viu desde a quebradeira de bancos e o inédito socorro público, os banqueiros sempre estarão a salvo, desde que operam negócios que simplesmente não podem falir. É disso que é preciso tratar, do salvo-conduto que se convencionou garantir a alguns privilegiados senhores. A crise de 2007, portanto, está longe de ter sido resolvida, mesmo que milhões de pessoas na Europa e nos Estados Unidos tenham perdido emprego, poupança, imóveis e suas vidas colocadas de ponta-cabeça.
No Brasil, apesar do saneamento bancário produzido no governo Fernando Henrique, alguns banqueiros “falidos” estão “ameaçados” de receber agora bilhões de reais, acima e além dos rombos produzidos em suas casas bancárias. Ou seja, faliram entre aspas e se tornarão, daqui a pouco, donos de fortunas inimagináveis. Por causa de decisão política, que se articula agora mesmo nos meandros da convivência pouco saudável de políticos da base aliada. Aqui, como lá fora, banqueiros são “intocáveis” e ganham sempre. O povo (e não os governos) perde sempre. Governos não criam riquezas, as consomem apenas, e nem sempre bem. Especula-se que, no Brasil, já tenhamos nova “bolha de consumo e crédito” parecida com a de 2007. É possível.
Banco continua o melhor negócio do planeta. Acima do petróleo, da indústria do automóvel ou da construção civil e mesmo da informática, o negócio de emprestar dinheiro continua protegido pelo Estado. Em pleno século 21. O capitalismo tem muito a evoluir, pois nele alguns ganham – e muito – o tempo todo, enquanto a maioria paga a conta. Lá fora por enquanto. Mas a conta pode nos alcançar daqui a pouco.
* por Apolinário Ternes, historiador e jornalista – aternes@terra.com.br / artigo publicado no jornal A Notícia
