Tsunami financeiro, novamente
No início da crise financeira de 2008, ouvimos que ela não passaria de uma marolinha, expressão redundante e equivocada: o País suou para escapar dos reflexos da grave crise iniciada nos Estados Unidos. Na verdade, foi um tsunami que atingiu o mundo, configurando a maior crise econômica desde o crack de 1929 e que ainda não terminou. Países industrializados sofrem, em grande parte, pela indisciplina fiscal e a descrença na velha parcimônia dos manuais de economia; em parte, pela falta de fôlego monetário diante da extensão do problema. Em suma, não havia (nem há) dinheiro suficiente para livrar a todos. “The Economist” alerta que a batalha para salvar a Itália da fúria dos mercados está chegando ao fim; talvez seja melhor poupar a munição (ou os euros) para outra coisa… como a França.
Com a falta de visão política do radical “Tea Party” americano, teme-se agora um rebaixamento em cadeia da classificação de risco de crédito. Depois de o Tesouro americano haver perdido seu AAA, chegará a vez das outras instituições; a isso se seguirão menores volumes de captação de fundos para financiamento. Expectativas e níveis de confiança tenderão a piorar e, por via de consequência, a queda na produção trará fatalmente o aumento do desemprego (e vice-versa). Em alguns países, ondas gigantes varrerão as bolsas; produtores verão desabar os preços de suas commodities. A respeito, o economista Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, adverte sobre os riscos da grande contração – além de uma simples recessão – e a combalida economia do euro será novamente posta em seriíssima dúvida existencial.
Como políticas macroeconômicas produzem resultados ao longo do tempo, algo como frear um transatlântico em alto-mar, americanos e Piigs já se resignam com uma década perdida. Até o início dos anos 20 – os novos anos loucos? – a face do mundo será substancialmente alterada por um conjunto de forças – entre as quais se destacam fatores geopolíticos e ambientais, mas, sobretudo, econômicos.
Economistas patrícios arriscam previsões domésticas e advertem que, se o Brasil não controlar o gasto público; reduzir, com mão leve, o consumo agregado e fazer algumas reformas vitais, não será possível evitar os efeitos da recessão mundial, que certamente aportará por aqui.
Duas sociedades mais avançadas que a nossa – a disciplinada e levemente pessimista japonesa e a americana liberal e consumista – já se previnem contra o pior, reduzindo o consumo das famílias e aumentando níveis de poupança. É claro que isso agrava ainda mais o cenário macroeconômico, mas é uma decisão irrepreensível do ponto de vista pessoal e familiar.
* por Miro Hildebrando, doutor em economia – hggbrando@gmail.com / artigo publicado no A Notícia

