O primeiro ano do resto de nossas vidas
Mais um ano, mais propósitos. A capacidade que temos de acreditar e de buscar é algo impressionante e, para a maioria, inesgotável. Enfim, 2010 é o primeiro ano do resto das nossas vidas. E que vida será esta? Vamos respirar, amar e trabalhar como fizemos nos anos que antecederam esta nova data e, talvez, alguns de nós tenham construído caminhos muito interessantes até aqui. Mas a cada ano que se inicia, pela humana condição de desejar e construir, podemos fazer planos e iniciar projetos.
Meu convite é que cada um pegue papel e lápis (ok! Pode ser o notebook) e liste de forma aleatória aquilo que gostaria de fazer nos próximos meses. Descansar nos finais de semana; descansar a mente pintando paredes (ou lendo um bom livro ou conversando); iniciar a pós-graduação, ou a graduação, ou o curso de qualquer coisa que seja do seu interesse.
Namorar mais, mesmo depois de 15 ou 30 ou mais anos de casado. Procurar os amigos de escola, fazer uma viagem, economizar, investir, assinar aquela revista, procurar outros amigos e ex-colegas. Trocar de emprego. Viajar para qualquer lugar, não importa se for só pelo prazer de ir e vir ou se for para visitar uma exposição; bater um papo com alguém que foi/é importante na sua vida. Aprender a dançar, pintar, cantar, tocar um instrumento. Entrar para a academia (esta além de clássica, habitualmente – coitada – é uma proposição deixada de lado antes do início). Não riam, pois todos têm propósitos que nunca passam disto: intenções.
A verdade é que fazer planos e sonhar nos mantêm vivos. Dependemos desta condição de projetar o futuro para nos constituirmos como proprietários da nossa história, mesmo que passemos boa parte da nossa vida fazendo coisas que nos ordenam ou que temos que fazer (lembra quando nos mandavam escovar os dentes? E fazermos as tarefas? Há coisas na vida que não há como negociar! Faz parte!).
Por outro lado, há pessoas que não se propõem. Simplesmente fazem acontecer de uma forma que (para quem olha de fora) parece que aquilo feito sempre esteve ali. Nasceu pronto. Mas não é bem assim – até porque todos sabem que nada nasce pronto. Dá trabalho, exige uma dedicação às vezes descomunal, requer recomeços e negociação contínua. Estas pessoas, algumas simplesmente teimosas outras iluminadas por uma intenção maior do que suas próprias existências, gozam do privilégio de trazerem em si um atributo tão desejado e realmente mérito de pouco – elas trazem em si a capacidade de não esmorecer, de se adaptar, de ceder um pouco aqui para conquistar muito lá adiante. Sentem o tombo, ou não, as dificuldades, e as absorvem e se recompõem e seguem em frente, persistem. A resiliência é uma competência para poucos. Entre nós, brasileiros, talvez ainda mais cara, já que conquistamos a fama de sermos cordiais, sociáveis e francamente afetivos. Ledo engano! Podemos ser tudo isto e sermos tenazes quanto aos nossos objetivos. Podemos afagar e conduzir, como quem cuida de uma criança. Buscar ativamente uma meta não é simples nem fácil, por mais banal que pareça a missão a que nos propomos.
Infelizmente, perdemos recentemente uma pessoa que se destacava por esta competência. Como poucos, demonstrava que valia a pena fazer aquilo que se constitui em uma trajetória de vida. Dona Zilda Arns nos deixa uma grande lição: para fazer muito, de verdade precisamos de nossa vontade, dedicação, conhecimento, capacidade de absorver o baque e recomeçar. Sermos aquilo que nossa humanidade nos permite ser.
* Lise Steigleder Chaves, consultora em gestão de pessoas. Artigo publicado no jornal A Notícia de 31/01/2010.

