Formação política, formação cidadã
É impossível esconder a surpresa ao observarmos os resultados de recente pesquisa eleitoral realizada pelo Instituto Mapa e publicada em abril. Isso porque, além de revelar uma prévia da configuração do cenário político em Santa Catarina para as eleições deste ano, a pesquisa trouxe à tona um dado revelador: menos de um quarto dos 1.204 eleitores ouvidos se declarou interessado nas eleições por vir. A soma dos que se consideraram muito interessados ou apenas interessados alcançou mirrados 23,7%. Resultado impressionante até para os mais pessimistas em relação ao nível de envolvimento político dos eleitores.
Mas quais os fatores que levam a essa flagrante indiferença? Um deles, certamente, é a descrença generalizada que impera em boa parte da população. O senso comum já deturpou tanto o assunto que a desconfiança é a primeira reação quando se fala de política. E declarar-se desinteressado pode servir aí como forma de protesto íntimo por parte do eleitor desenganado. Mas a descrença é reforçada por um segundo aspecto: o desconhecimento. Faça uma enquete entre colegas e veja quantos sabem o papel real de um vereador. Pergunte se conhecem a diferença entre Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, e como eles se relacionam. Provavelmente, as respostas serão vagas, largamente influenciadas por meias verdades e preconceitos reconfortantes.
Ora, o desconhecimento se combate com informação, obviamente. E alguns dirão que ela está disponível, que uma rápida busca pela internet é suficiente para instruir qualquer indivíduo com uma formação educacional razoável sobre alguns aspectos básicos das instituições de poder político e governamental. Mas é aí que devemos introduzir uma distinção básica entre acessibilidade e disponibilidade. Estar disponível não significa estar acessível. O conhecimento se torna acessível a partir do momento em que existe interesse e orientação para sua descoberta. Não aprendemos os rigores da língua portuguesa apenas tendo uma gramática à mão, assim como não aprendemos a dominar operações matemáticas complexas com listas de exercícios resolvidos. É preciso formação educacional.
A formação educacional, segundo a Lei de Diretrizes Básicas da Educação (LDB) é dever da família e do Estado e tem como uma das finalidades o preparo para o exercício da cidadania. E o que isso tem a ver com política? Tudo. A política, entendida na sua acepção original, é aquilo que se refere ao bem comum, à administração da vida em coletividade. Cidadania, por sua vez, é o direito de fazer parte dessa coletividade. Sendo assim, não podemos admitir que exista cidadania sem política, nem considerar cidadão pleno o indivíduo que não conhece ou não faz uso de seus direitos políticos (que, por sinal, vão muito além de depositar um voto a cada dois anos). E se é a escola a principal responsável pela formação desse cidadão, não deveria ela também zelar pela sua formação política?
Fato é que a instituição escolar não promove satisfatoriamente essa formação política. E esse fato não é acidental. É produto de uma vontade para a manutenção do estado atual de ignorância generalizada, uma vontade que emana das próprias instituições de poder, que deveriam combatê-la. O quadro que se vê é o de uma massa de jovens que não fala sobre nem participa minimamente dos acontecimentos políticos. A permanecer tal situação, o jovem brasileiro caracterizará, cada vez com mais perfeição, a figura daquele que o dramaturgo alemão Bertolt Brecht definiu como o pior e mais miserável tipo de analfabeto: o analfabeto político.
* por Tiago Luis Pereira, músico e jornalista. Contato tiagoluispereira@hotmail.com / artigo publicado no jornal A Notícia

