Mediocridade de resultados
O fracasso do futebol brasileiro é o retrato do pior do Brasil, um alerta sobre o preço que pagamos pela nossa natural complacência com a ineficiência e a mediocridade.
Junto com a política, é das poucas coisas que ainda não mudaram com essa transformadora emergência econômica brasileira.
O futebol é o velho Brasil, cheio de dívidas, opaco, amador, ineficiente, injusto, palco para todo tipo de expediente e má-fé.
Nossos times, nossos estádios e nossa organização são uma bagunça, para dizer o mínimo. Os dirigentes tratam mal o torcedor, não pagam suas dívidas, não conseguem ou não querem viabilizar equipes lucrativas e boas arenas, mesmo tendo como produto a verdadeira paixão nacional.
Embora lidere o ranking da FIFA, o futebol brasileiro não tem nenhum clube entre os maiores do mundo. Enquanto potências e máquinas de fazer dinheiro como Manchester United e Real Madri se assumem como clubes-empresas e com isso ganham musculatura para construir seleções internacionais que encantam seus torcedores, os clubinhos nacionais tornam-se apenas incubadoras de talentos com o propósito primeiro de enriquecer dirigentes, atravessadores e jogadores, nunca as equipes.
Com o aumento da renda do torcedor brasileiro, que nunca desiste, o caminho da salvação é óbvio. E já foi traçado pelos clubes estrangeiros: passo um é contratar executivos para a gestão profissional, com metas, transparência e conhecimento dos torcedores/clientes. Passo dois é fazer pesquisa junto aos torcedores para conhecer esses clientes apaixonados que mesmo quando o futebol é de péssima qualidade seguem consumindo o produto. Passo três é redimensionar e equilibrar as três fontes principais de receita dos clubes: transmissão da TV, renda dos estádios e patrocínios.
A seleção de Dunga é o retrato acabado desse atraso de coisas do futebol, como sua própria indicação já o fora. A CBF escolheu um técnico para comandar o maior time de futebol do mundo que até então não tinha experiência nenhuma no cargo. Que empresa faria isso?
Deu no que deu. Não vamos levar Ronaldinho, Neymar e Ganso para a África do Sul para levar Elano, Kleberson e Ramires, entre outros.
A derrota da seleção-arte de 1982 (de Zico Sócrates e Falcão) e a vitória da selecinha-resultado de 1994 (de Dunga, Mauro Silva e Zinho) são os dois atos que definiram a mediocridade como padrão do futebol brasileiro.
O pior é que Dunga e seu comparsa técnico, Jorginho, se vangloriam das semelhanças com o infame escrete de 1994. Como se nada tivéssemos evoluído nesses mais de 15 anos, como se não pudéssemos superar essa mediocridade de resultados.
Que a derrota anunciada na África sirva de lição, embora no futebol, como na política, só aprendamos com os maus exemplos.
* por Sérgio Malbergier que é jornalista. Foi editor dos cadernos Dinheiro (2004-2010) e Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, “A Árvore” (1986) e “Carô no Inferno” (1987). E-mail: smalberg@uol.com.br
** coluna publicada ontem (13.05.2010) no Folha Online. Sérgio Melbergier escreve para a Folha Online às quintas.

