Um novo cenário se descortina para a China
A pós seguidos anos de forte crescimento, a economia chinesa parece ter chegado ao seu grande dilema. Como diz um velho ditado, “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. Desde 1949, a China é governada pelo Partido Comunista Chinês, que até 1976 tinha na figura do seu fundador Mao Tse Tung, o grande responsável pela planificação econômica do país. Depois de sua morte, assumiu o poder Deng Xiaoping, que promoveu a abertura econômica da China, apesar da manutenção do regime totalitário.
A partir daí, a China começa a conviver com um misto de regime comunista com o capitalista, que ainda terá grandes desdobramentos no futuro, e cujas sinalizações começam a se fazer presentes neste final da primeira década do século 21. Com taxas de crescimento anual do PIB girando em torno dos 10% a partir de 1990, rapidamente alcançou, como muitos dizem, a posição de segunda maior economia mundial. Entretanto, aqui cabe uma importante observação: segunda posição em termos de produção, e não em termos de desenvolvimento econômico.
Conceitualmente, o PIB refere-se ao valor agregado de todos os bens e serviços finais (consumo das famílias) produzidos dentro do território do país, independentemente da nacionalidade dos proprietários das unidades produtoras desses bens e serviços. O desenvolvimento econômico, por sua vez, implica, além de aumento na quantidade de bens e serviços produzidos numa economia, mudanças de qualidade de vida da população. Por esta razão, o desenvolvimento econômico não deve ser analisado tomando-se por base os indicadores tais como o crescimento do produto global (PIB) ou o do crescimento do produto per capita, e sim por outros indicadores que reflitam mudanças na qualidade de vida da população.
Nesse período de forte crescimento, pode-se observar que a estratégia do governo estava voltada para o mercado externo, tanto é que já em 2006 assumiu a terceira posição, atrás dos Estados Unidos e da Alemanha, em volume de exportações, que chegou a US$ 1,76 trilhão. Com isso, conseguiu desenvolver o mercado interno, por meio da geração de renda para a sua população através da criação de 15 milhões de emprego por ano. Mas esta realidade tem suas limitações, afinal privilegia pouco mais de 400 milhões de pessoas, dentro de um universo de mais de 1,3 bilhão de habitantes.
Essa estratégia adotada pelo governo chinês acabou atraindo muitas empresas estrangeiras, que criaram uma base de produção e de exportação aproveitando o baixo custo da mão de obra e se beneficiaram também do próprio crescimento do mercado doméstico chinês.
Entretanto, isso fez com que os salários começassem a subir rapidamente em todas as áreas industriais do país, que hoje se situam na faixa de US$ 117 a US$ 147 mensais. Assim, empresas estrangeiras que estão na China por questões de custo de produção podem começar a migrar para outros países como Camboja, Vietnã ou Bangladesh, onde um funcionário bem pago recebe ao final do mês US$ 67.
Este cenário ressalta as seguintes preocupações: à medida que empresas saem da China, o nível da atividade econômica pode se comprometer, gerando desemprego e consequente queda na renda da população; o aumento do custo da mão de obra encarecerá o produto chinês, que pode começar a perder sua competitividade de preço no mercado internacional; a queda da atividade econômica, em uma sociedade que começou a aprender a consumir, pode começar a pressionar preços para cima, gerando a tão temida inflação. Isso é bom para a economia mundial?
* por Otto Nogami, ecomonista, professor do Insper e do INPG / artigo publicado no A Notícia

