Onde está o imbróglio?
Neste próximo 7 de setembro, vamos comemora 188 anos de independência, e também um ano de indecisão. Foi ao fim das festas da Independência no ano passado que, junto ao presidente Nicolas Sarkozy, o presidente Lula anunciou que o Brasil iria comprar o avião militar francês, o caça Rafale. Ele justificou que essa era uma decisão política, e que implicava não somente uma transação comercial, mas sim uma pareceria estratégica com a França.
Essa declaração gerou muita polêmica, uma vez que a imprensa acabou noticiando que os oficiais técnicos da Força Aérea Brasileira (FAB) haviam escolhido o caça sueco. Pela imprensa também houve muito debate, uma vez que especialistas apontaram os pontos positivos e negativos de cada competidor, não esquecendo que ainda há o avião americano. Diante da repercussão, tanto o presidente, quanto os ministros da Defesa e das Relações Exteriores passaram a repetir o bordão de que essa seria uma decisão política, e não somente técnica.
Quanto a ser uma decisão política, isso não há nada de errado, uma vez que somente um país que produz todo o seu equipamento militar, é que pode tomar uma resolução totalmente técnica. Este é o caso dos Estados Unidos, mas, mesmo lá, há sempre a interferência política, uma vez que não é do interesse daquele governo que haja uma concentração da fabricação deste tipo de produto em poucas empresas. Nos outros países que precisam comprar seus equipamentos militares de outros governos, este tipo de transação é compreendida como uma relação política, e não comercial.
Entretanto, não se pode adiar mais esta decisão, uma vez que, entre o anúncio e a efetivação dos contratos junto a bancos comerciais que vão financiar a compra, assim como a definitiva entrega dos aviões, alguns anos serão necessários. Esse atraso tem o potencial de colocar em risco a vida dos oficiais da FAB que vão continuar a pilotar aviões que se aproximam do fim da sua vida útil. Assim, fica a grande dúvida dos motivos que estão levando à postergação do anúncio do vencedor desta concorrência.
Tendo em vista algumas declarações do ministro da Defesa, assim como reportagens citando fontes ligadas ao comando da Aeronáutica, de indícios de dificuldade em conseguir um arranjo econômico e técnico, duas hipóteses podem ser levantadas. A primeira é que houve uma precipitação por parte do presidente Lula, que, ao sair do jantar oficial junto ao presidente Sarkozy, deu entrevista fazendo o anúncio. A segunda hipótese é de que o próprio núcleo político do governo tenha se dado conta de que o anúncio foi precipitado, e pretende deixar a decisão para o próximo governo, a fim de não arcar com o ônus político de qualquer decisão que seja tomada.
Qualquer que seja a realidade, uma coisa é certa: o governo brasileiro não deveria justificar sua escolha por uma pretensa parceria estratégica com a França. O governo francês já deu várias demonstrações de que não tem a mesma visão sobre o relacionamento bilateral, como na negociação da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, quando foi contra o fim do subsídio agrícola defendido pelo Brasil, e nesta semana, quando o ministro da Indústria francês, Christian Estrosi, endossou abertamente o aumento de ações protecionistas tanto no seu país quanto em toda a União Europeia. O político francês defendeu ainda que protecionismo não é um “palavrão”, e que a busca pela proteção dos produtos franceses fará com que seu país volte a ser uma grande potência no cenário internacional. Com certeza, essa visão não vai ao encontro com a postura defendida pelo nosso governo.
Assim, quanto mais demorar a decisão, pior ficará para o Brasil. Primeiro, por poder passar a imagem de um governo que não sabe o que quer. Segundo, por também poder dar a percepção de que os interesses políticos e pessoais estão interferindo em decisões tão importantes quanto a área de defesa. E por último, passar a responsabilidade da decisão para um novo governo, que arcará com toda as consequências políticas e econômicas desta atitude.
* por Gunther Ruthzid, professor da Sustentare Escola de Negócios / artigo publicado no A Notícia de 5.09.2010

