Já estamos em setembro
Setembro é um mês de reflexões obrigatórias. Em setembro de 1869, por exemplo, Solano Lopez manda torturar o irmão, que acusa a irmã e a mãe de conspiração. Ambas são torturadas e o irmão de Solano falece em decorrência dos maus-tratos. O destino do Paraguai à época da guerra (1864-1870) e, em boa parte, hoje, é decorrência do desmedido culto à sua personalidade.
Se Santa Catarina ganhou o prêmio de melhor gestão pública do Brasil não é por obra exclusiva do governador, mas de Cleverson Siewert, secretário da Fazenda. O mesmo se diga da segurança pública, hoje capitaneada por Andre Mendes da Silveira, também um técnico. O que o povo e um governante precisam saber é que o líder do governo indica um norte, mas não se espera que conheça cartografia ou orientação a ponto de ele mesmo traçar um azimute. Para isso, espera-se que ele tenha o discernimento de contratar os técnicos preparados e competentes para a tarefa.
Apesar de óbvio, não é isso o que se vê em boa parte da administração pública brasileira. O preenchimento de cargos muitas vezes se dá por critérios de parentesco, de filiação partidária, por razões privadas escusas, porque fulano é da maçonaria ou porque ajudou na campanha, e assim por diante, passando longe do critério técnico.
Hoje, ressurge na América Latina um culto à personalidade, como se pode ver na Venezuela de Hugo Chávez e, em menor medida, em Evo Morales. Lula segue um caminho parecido. Por eu ser de Porto Alegre, sou “gata escaldada”. Os melhores técnicos do PT, quando havia, não chegavam aos pés daqueles da chamada “direita”. Sobrava discurso moralizador. Agora, possivelmente teremos Dilma, que nunca foi nada na vida, em termos políticos.
Já dizia minha avó que “ovelha não é pra mato”. Vamos esperar que o próximo eleito tenha bom senso de, apesar da sua ideologia ou plano político, não fazer do Estado capacho de partido e que preencha os cargos com técnicos capazes.
Esses, geralmente, não estão nem aí para a política e só querem trabalhar de verdade. Do contrário, vamos ver a história se repetindo – como farsa, claro: a escolha de um inimigo, bode expiatório para os erros do líder. Solano Lopez nomeou parentes para todos os cargos importantes do Paraguai. Não admitia jamais um erro e não queria ouvir falar dos revezes da guerra. Sistematicamente, impedia iniciativas individuais por medo de comparações e por ciúmes! Muitos não conhecem a história pessoal de Solano Lopez. Mas todo mundo conhece o Paraguai.
* por Samantha Buglione, jurista, mestre em direito e doutora em ciências humanas – buglione@antigona.org.br / artigo publicado no A Notícia

