Apagão de talentos
Independentemente da região do planeta, a atração e retenção de talentos continua sendo umas das principais vantagens competitivas para as empresas de todos os portes. A falta de profissionais capacitados voltou a figurar entre as maiores preocupações apontadas na 6ª Pesquisa de Líderes Empresariais, feita globalmente pela PricewaterhouseCoopers.
No mundo, 51% dos líderes consideram a escassez de profissionais com as competências necessárias uma ameaça aos negócios. No ano passado, a necessidade de lidar com as questões de curto prazo – ainda estávamos em pleno furacão da crise mundial – colocou o tema em segundo plano e apenas 34% consideravam essa questão um risco.
No Brasil, esse é um dos principais temores para o crescimento sustentado dos negócios. No País, 63% dos líderes responderam estar preocupados com a falta de profissionais qualificados. Essa preocupação supera outras ameaças citadas pelas lideranças brasileiras, como custos de energia, mudanças climáticas ou escassez de recursos naturais.
Os empresários em geral, e especialmente no Brasil, demonstram estar cada vez mais céticos sobre a capacidade de os governos formarem mão de obra qualificada e teme-se um apagão de talentos. A situação é mais grave no caso dos países que devem vivenciar forte crescimento na próxima década, com é o caso do Brasil, onde as projeções para o PIB de 2010 oscilam entre 5% e 6%.
Entre as estratégias pós-crise que as empresas pretendem adotar estão a de gerenciar as pessoas por meio de mudanças, incluindo a redefinição de papéis dentro da organização, ações de treinamento de capacitação; criação de oportunidades para que os colaboradores se engajem em atividades de responsabilidade social e a adoção de ambiente de trabalho mais flexível. A lógica é que um bom clima interno reduz a rotatividade e mantém ou atrai talentos.
Em Santa Catarina, o problema já está na pauta de prioridades dos empresários desde o início do ano, mas a situação tende a se agravar nos próximos meses. Existem vagas em aberto em praticamente todas as regiões do Estado e, principalmente, para cargos operacionais ou gerenciais que demandam profissionais com determinadas capacidades técnicas muito específicas.
Existem alguns problemas que são inerentes à escassez de mão de obra. Um deles é que a alta rotatividade de profissionais dispara os custos para as empresas. Em algumas regiões do Estado, a rotatividade triplicou nos últimos cinco anos. E, para além da rotatividade, há o investimento – monetário e em tempo – no treinamento do profissional. Tudo isso dispara o custo de produção das indústrias e das prestadoras de serviços.
Os números do Ministério do Trabalho demonstram a efervescência do mercado de trabalho em Santa Catarina. De janeiro a julho, foram criadas 71 mil vagas. Este número já está bem acima do registrado durante todo o ano passado – quando o resultado foi de 51 mil novos postos.
As estatísticas também demonstram que a indústria é a principal impulsionadora desse bom desempenho. Se em 2009 o setor foi responsável por 2,3 mil contratações, este ano – de janeiro a julho – já soma 40 mil.
Não existe solução a curto prazo para zerar o déficit de profissionais, mas é preciso pensar em médio e longo prazo. Uma das alternativas é a criação de mais escolas técnicas e do incentivo à educação continuada. Nesse intervalo de tempo, as indústrias terão que continuar a investir forte em qualificação profissional e políticas agressivas de atração e retenção de talentos. Sinal de maturidade empresarial.
* por Carlos Peres, sócio da Pricewaterhousecoopers / artigo publicado no A Notícia no dia 19.09.2010

