Pensamento desejoso
Há pouco tempo, revendo as memórias de Roberto Campos que, em sua vida aventurosa, teve a oportunidade de dialogar com as mais diferentes personalidades – até mesmo a chance de bisbilhotar o comportamento de Lorde Keynes e sua belíssima esposa em Bretton Woods em 1944 – li que muitas pessoas, incluindo governos, vivem de pensamentos desejosos, o wishful thinking dos ingleses.
Quando as pessoas expressam opiniões que não passam de pensamentos desejosos, deve-se mostrar alguma indulgência: faz parte da natureza humana. Mas quando equipes governamentais e xiitas carismáticos (“quem pensa diferente é inimigo”) tomam certas decisões, temos que pensar não numa réplica valorosa, como diria o personagem shakespeariano, mas em despertar os espíritos para uma crítica razoável. Criticar o governo pode ser algo útil; talvez prazeroso quando temos de enfrentar a kafkiana arrogância tecnoburocrática.
O governo planeja construir, contando com hesitantes parceiros privados, a usina de Belo Monte, um mastodonte cujo impacto ambiental será catastrófico, como o atestam dezenas de ONGs ambientais. Conforme José Roberto Mendonça de Barros (“Estadão”, 19/9) e outros articulistas, um projeto de “escassa viabilidade econômica” que exigirá US$ 30 bilhões a valor presente do BNDES e do governo federal. Dedica-se também a estudos aprofundados sobre o trem-bala no eixo Rio-São Paulo – para delícia da classe média – outro projeto faraônico, cujo custo será de US$ 35 bilhões. Temos a gigantesca operação para arranjar recursos para a Petrobras, cujo volume poderá chegar a US$ 80 bilhões, dando a estatal o sonhado controle da prospecção do pré-sal.
E as transferências do Tesouro para o BNDES (R$ 207 bilhões nos últimos três anos mais R$ 60 bilhões previstos para 2011), 64% dos quais foram utilizados neste ano pela Petrobras, Eletrobrás e dez grupos privados, entre estes as construtoras Andrade, Gutierrez; Camargo Correa e Odebrecht; a mineradora Vale, o grupo Votorantim, o frigorífico JBS e uma ou duas multinacionais. E, para fazer uma singela comparação: o Programa Bolsa-família consumirá em 2010 a expressiva soma de R$12 bilhões, que beneficiam 12,9 milhões de famílias pobres e carentes.
É um velho vício imaginar que o governo pode tudo, inclusive ser empresário e industrial. Mas, e a concentração de recursos em grandiosos projetos e grandes grupos privados nacionais, deixada de lado pela retórica oficial que lembra apenas dos últimos 12 bilhões? Nem mesmo utilizando a lógica do wishful thinking se compreende isso; talvez seja mesmo simples pensamento errático, beneficiado pela boa e velha propaganda.
* por Miro Hildebrando, doutor em economia – vbrando@uniplac.net / artigo publicado no A Notícia

