Aos eleitos
Muitos eleitos se vangloriam das alianças duplas, triplas e quádruplas realizadas que contribuíram para o resultado obtido nas urnas. Enganam-se, contudo, se acham que o critério para a administração deve ficar, agora, condicionado a esses arranjos.
Todos os já eleitos este ano – governador, deputados estaduais e federais e senadores – têm um único compromisso, que é com o interesse público e com a Constituição Federal. O resto é resto. Não importam os amigos de campanha, as alianças, tampouco os financiadores.
Infelizmente, no Brasil, a lógica se inverte e via de regra os eleitos (e os eleitores) pensam que o que legitima a ação do agente público é uma suposta procuração de interesses privados. É por isso que as alianças e as cartas marcadas me preocupam. Não sei em que medida um político eleito hoje é capaz de, efetivamente, fazer política. O que exige, muitas vezes, desagradar a diferentes grupos e apoiadores.
Exemplos de ilegalidade e política destorcida não faltam: o Código Ambiental de Santa Catarina, as licenças ambientais ilegais, a tentativa de aprovar empreendimento como fosfateira em Anitápolis e estaleiro em Biguaçu, que violam não apenas a lei, mas o bom senso, além de trazerem prejuízos econômicos, para a saúde e o bem-estar das pessoas.
Quando o Estado se transmuta em servidor de interesses privados, tudo se perde e a corrupção e o compadrio viram as regras. O resultado disso é a lógica de pensar saúde e segurança de forma contingente e não preventiva, de investir em asfalto e não em saneamento, de dar dinheiro somente para grandes empresários e não apoiar os pequenos, de promover um crescimento econômico insustentável que a médio prazo trará mais gastos e menos recursos, ou, ainda, de criar cabides de emprego para desqualificados e preencher cargos técnicos com políticos de carreira.
Pergunto-me, portanto, se os eleitos serão capazes de fazer o que devem fazer, se serão livres, corajosos, responsáveis e competentes. Se as políticas serão feitas pensando no bem-estar desta e das futuras gerações ou apenas as próximas eleições. Vencer uma eleição com acordos internos, trocas de favores e muito recurso não é o mais difícil. O difícil, como nunca, é fazer política no Brasil. Que significa a compreensão do sentido de legalidade e, óbvio, a participação das pessoas. Uma participação que não deve se caracterizar pela busca de benefícios pessoais, mas, sim, pela vigilância e pelo sacrifício que muitas vezes exige a construção (e reforma) de um país.
* por Samantha Buglione, jurista, mestre em direito e doutora em ciências humanas – buglione@antigona.org.br / artigo publicado no A Notícia

