Uma nova década de desafios
Mais um ano se inicia, com grandes desafios. Expectativas com relação à inflação, juros, câmbio, crescimento, aumento do poder de compra do trabalhador associado a uma melhor distribuição da renda, aumento da competitividade e daí por diante. Desafios, especialmente para o governo federal que se inicia agora, em contemporizar estas expectativas com o cenário que se descortina para os próximos anos, como o centro das atenções do mundo, especialmente com vista à Copa e às Olimpíadas.
Não raro ouvimos comentários negativos com relação à falta de infraestrutura para suportar eventos dessa natureza. A falta de transportes coletivos urbanos, por exemplo, em quantidade e qualidade necessária para atender a demanda cada vez mais crescente. Como esses investimentos não são realizados com a celeridade necessária, o trabalhador se vê, cada vez mais, dependente do transporte individual, contribuindo para o congestionamento das vias públicas, fazendo com que cada vez maior seja o tempo de deslocamento entre a casa e o trabalho.
Outro exemplo sempre lembrado diz respeito à produção de commodities. Como as regiões produtoras estão nas regiões interioranas do País, o deslocamento da produção se faz por meio de ferrovias e estradas. Como a infraestrutura ferroviária não recebe investimentos representativos há muitas décadas, este tipo de transporte se torna inviável, sobrecarregando ainda mais o sistema rodoviário, à beira do colapso, também por falta de investimentos. Este cenário faz com que o País, campeão em produtividade em muitas culturas, perca a competitividade por um custo adicional que sobrecarrega a produção.
Como sempre tenho enfatizado há falta de investimentos, não só em infraestrutura, mas também no setor produtivo, dando condições de melhorar e aumentar as condições de produção de bens de consumo durável e não-durável. Isso fez com que, ao longo das últimas décadas, aumentasse cada vez mais a defasagem entre querer consumir e ter capacidade de produção, principalmente nos anos recentes, com o aumento do poder aquisitivo. Esse desequilíbrio aumenta os preços.
Para atenuar essa pressão sobre preços, só existem dois instrumentos: aumenta-se a capacidade de produção, ou seja, aumentam-se os investimentos, ou aumenta-se a taxa de juros. Para que investimentos sejam realizados, há a necessidade da existência da poupança. Como o brasileiro ainda não tem característica poupadora, a única saída é elevar a taxa de juros. Isso nos permite dizer que o Brasil, dada essa condição, é um País de taxa de juros alta, mesmo que os indicadores macroeconômicos estejam saudáveis.
A taxa de juros alta torna o País altamente atrativo para o capital especulativo. À medida que estes recursos migram para o País, pressionam o câmbio para baixo, valorizando o real sobre o dólar. Este movimento faz com que a exportação perca a competitividade.
Por outro lado, essa valorização do real torna produto importado mais barato. Em determinados setores, essa realidade está fazendo com que algumas indústrias comecem a produzir seus bens em outros países, que permitem produzir a custos significativamente mais baixos, contraindo o parque industrial nacional.
Essa desindustrialização tem efeitos perversos. Reduz a empregabilidade da economia, comprometendo a performance do PIB, podendo trazer reflexos sobre a capacidade de geração de renda no País, aumentando o comprometimento do governo nos programas sociais. Assim, o grande desafio de nossos governantes é a forma com que eles conduzirão o nosso dia a dia para tornar o Brasil um País emergente efetivamente competitivo.
* por Otto Nogami, professor de economia do INSPER e do INPG / artigo publicado no A Notícia

