Terremoto, tsunami e crise nuclear
O Japão, arquipélago composto de mais de seis mil ilhas espalhadas ao longo do Círculo do Fogo do Pacífico, está exposto, permanentemente, a mais de mil abalos sísmicos por ano e possui, ao longo do seu território, mais de 60 vulcões ativos. A extensão territorial deste país equivale às áreas somadas do SP, ES e duas vezes a do RJ, com 75% desse total cobertos por florestas e relevo montanhoso. Isso faz com que grande parte das cidades se distribua em áreas planas e a planície costeira, abrigando uma população da ordem de 128 milhões de habitantes.
Estas características geográficas fizeram com que o povo japonês passasse do mito de “povo sofredor” para a certeza de um “povo em prontidão”, segundo Andrew Gordon, da Universidade de Harvard. Tanto é que o país é considerado, nos dias de hoje, o mais bem preparado do mundo para enfrentar catástrofes naturais. Entretanto, a conjunção de alguns fatores que, isoladamente no dia a dia, muitas vezes, são encaradas de forma natural, levou o Nordeste do Japão à tragédia, principalmente pela proximidade do terremoto com a região litorânea da Província de Miyagi, onde se encontra a capital Sendai, que praticamente foi aniquilada do mapa pelo tsunami.
Se isso não bastasse, na Província de Fukushima, logo abaixo e também ocupando a faixa litorânea, está localizada a usina nuclear de Fukushima 1, responsável por 7% de geração de energia do país (27% é a participação da energia nuclear na produção total de eletricidade no Japão). Essa usina, cuja concepção é antiga, possui um sistema de resfriamento dos reatores por meio do bombeamento de água que, atingido pelo tsunami, comprometeu o seu funcionamento. Os sistemas alternativos de geração de energia para movimentar as bombas de resfriamento foram construídos ao nível do solo, e também foram atingidos pelo tsunami. Com o comprometimento do sistema de resfriamento, aumentou o risco de um acidente nuclear pelo excessivo aquecimento dos reatores que poderiam fazer escapar material radioativo para a atmosfera.
Um cenário estarrecedor. Cidades inteiras totalmente destruídas, com danos totais à infraestrutura, atingindo principalmente o sistema ferroviário da região, que representa o melhor meio de locomoção da população. Apesar de esta parte do Japão representar uma fatia relativamente pequena na produção industrial (7% segundo o “The Wall Street Journal”), os impactos são bastante fortes para a economia e sociedade japonesas, pois algumas das atividades desta parte do país estão no topo de toda uma cadeia de produção industrial e de alimentos. Na região, estavam empresas produtoras de semicondutores, peças para telecomunicações, refinarias, siderúrgicas, produtos eletroeletrônicos, softwares, dispositivos eletrônicos, além de uma forte atividade agrícola e de ter em sua área o terceiro maior porto pesqueiro do mundo.
Que esta sociedade se erguerá e reconstruirá o que foi destruído, não há nenhuma dúvida. E numa velocidade muito mais rápida do que podemos imaginar. Mas à medida que nos debruçamos em cima dos dados e informações, observando os movimentos do governo japonês e de outras grandes economias mundiais, especialmente em torno da questão nuclear, inevitavelmente surge uma pergunta: será que não estamos passando por um novo marco na história mundial?
Para a história japonesa, com certeza, cujo desdobramento pode se dar com tecnologia, tanto na área industrial – pois há o exemplo do lançamento do Hayabusa, um trem que viaja a 300 km/h – como para alta tecnologia na prevenção de catástrofes, tsunamis e riscos nucleares, já que o país é referência na vigilância de abalos sísmicos.
* por Otto Nogami, professor do Insper e do INPG / artigo publicado no A Notícia

