As lições de eficiência do U2
A banda irlandesa U2, que esteve recentemente na capital paulista, tem vários talentos no grupo, mas possui unidade de comando. Além disso, é dona de uma logística impressionante.
E m recentes megashows no Brasil, a banda U2 (“Você Também”) que pode ser uma transliteração meio enviesada da expressão em inglês You Too, simplesmente esbanjou competência organizacional.
Não vou entrar aqui na seara dos gostos musicais, pois há quem não goste do estilo musical do U2 (para alguns críticos, parecem mais bons performers do que necessariamente músicos), o que é o caso também da opinião particular deste escrivinhador brucutu, mas devo reconhecer que os caras são feras naquilo que fazem. Elevam os padrões de qualidade no que se propõem a fazer ao grau de excelência.
Que lições com foco no empreendedorismo podemos tirar da expertise da banda irlandesa que causa furor por onde se apresenta? São inúmeras, mas neste artigo quero elencar aquelas que, sob minha ótica, são espetaculares em todos os sentidos, a saber:
Sintonia com o meio social no qual se inserem. No caso do Brasil em particular, como seus shows se deram quase que simultaneamente à tragédia do atirador que matou várias crianças numa escola do Rio de Janeiro, a banda, num telão especial, homenageou as crianças mortas. Isso não é oportunismo, pois o U2 abraça causas sociais por onde passa. No caso de uma empresa, o envolvimento com causas sociais deveria ser parte integrante de seus objetivos, que devem ir muito além do lucro pecuniário.
Unidade de comando: a banda, composta por pessoas de grande talento no que fazem, é coesa em torno de um líder. Isso também é válido no caso de qualquer empresa que almeje sagrar-se vitoriosa; ou seja, não basta ter um líder definido dentro de uma escala hierárquica: é preciso haver convergência no conjunto das ações a serem empreendidas.
Espaço para que talentos individuais brilhem: o U2, sob o comando de um líder carismático e de forte presença no palco, permite que todos da banda expressem sua criatividade e expertise individual, sem egos sobressalentes. É o que deveria ocorrer nas empresas: dar liberdade para que seus recursos humanos, independentemente do cargo ocupado, deem show de competência individual sem perder o link com a equipe.
Perfeito senso do timing: começo, meio e fim de um evento, em um tempo pré-definido, sem nada faltando ou a ser acrescentado. Infelizmente, não é o que acontece em muitas empresas. Quantas reuniões, por exemplo, começam com atraso, pautas confusas, conversas desfocadas, sem hora para terminar – e, quando terminam, “tudo” foi conversado, mas nada foi decidido …
Logística excelente: se tudo é extraordinário no U2, sua logística parece coisa de cinema. Mais de duas centenas de caminhões transportando equipamentos, quilômetros de fios a serem ligados sem nenhum erro, softwares e telões de última geração, sistema de som que reproduz a mesma qualidade obtida nas gravações em estúdio, palco que parece design de um game em 3D, trezentas ou mais pessoas comprometidas com cada etapa do processo, que redundará num show impecável como “produto final” – tudo funcionando como um relógio suíço.
Imaginemos os princípios de uma logística assim, aplicados numa dada empresa. O que teríamos?
A empresa, de fato e de direito, funcionando como um todo sistêmico, com foco na excelência no atendimento a clientes. Vale lembrar que logística, na sua semântica maior, não pode aqui ser reduzida a “transporte”, mas abrange a racionalização das atividades dentro de uma organização, integrando subsistemas operacionais a um sistema matricial sobre o qual uma empresa se estrutura como entidade viva.
Quero crer que de todas as lições que a “empresa U2” pode nos ensinar, sem dúvida a maior delas é mesmo sobre logística. Tempo, insumos, equipamentos, tecnologia, pessoas, processos, métodos, tudo é planejado meticulosamente para dar certo.
Outra grande lição é que, sob a ótica do U2, não se questiona o “quanto vai custar uma dada ação”, no sentido maniqueísta de “caro-barato”, mas quanto de volta (benefícios) a verba financeira a ser alocada será capaz de gerar. É notório que, como uma empresa eficientíssima, o U2 trabalha com precisão o conceito e a prática do “custo-benefício” de cada centavo..
Envolvimento social, liderança facilitadora, estímulo ao talento individual, reciclagem profissional, atuação em equipe, tempos e movimentos monitorados com precisão, uso adequado das ferramentas do marketing moderno, liberação de verba financeira para investimentos com foco e maestria naquilo que faz na prática, isto tudo combinado é o que garante o U2 continuar sendo uma organização empreendedora de extraordinário sucesso no mercado hiper competitivo do “showbiz” global.
Eis porque, para empreender, não basta um sonho na cabeça e ter alguma grana: é preciso saber pilotar uma máquina chamada empresa e contratar copilotos que tenham brilho próprio e saibam trabalhar em equipe. O U2 que o diga.
* por Luiz Oliveira Rios, profissional de Mk e vendas e colunista do Diário do Comércio – oliveira.rios@hotmail.com
/ artigo publicado no Diário do Comércio.

