Desmobilização real e virtual
Se a recuperação da atividade econômica no Brasil depender apenas da mobilização dos brasileiros em torno de direitos do cidadão ou causas políticas, possivelmente estamos bem. ‘Possivelmente’, porque sempre há o risco de um levante através das redes sociais. Há um mês, mais de 1 milhão de pessoas participaram de marchas realizadas em 75 cidades brasileiras. A maioria das manifestações foi pacífica, mas não faltou confronto, duas semanas depois do protesto que começou em São Paulo contra o reajuste de R$ 0,20 na tarifa de ônibus. Prefeituras derrubaram o ajuste das tarifas, como se vê agora na inflação, quase negativa. Mas o movimento ganhou inúmeras bandeiras que revelaram um Brasil aplicado, pontual, empregado e discreto ao lidar com a inflação. O site Causa Brasil – em operação desde 17 de junho e responsável, até agora, pela análise de mais de 1,3 milhão de menções espontâneas relacionadas aos temas do protesto por postagens no Facebook,Twitter,Instagram,YouTube e Google+ – é um bom termômetro da desmobilização, apesar da proliferação das bandeiras que circularam pelas avenidas das principais capitais brasileiras.
Embora a economia tenha um espaço preponderante na agenda do governo e, portanto, da mídia, o (ainda) forte mercado de trabalho deixa a economia na lanterninha dos grandes temas discutidos pelos manifestantes virtuais que também organizam os protestos reais. Por ordem decrescente, alguns dos temas mais citados são Políticos, Liberdades Individuais, Direitos Básicos, Copa no Brasil e Economia.
De 19 para 20 de junho, na contagem regressiva para as “passeatas do 1 milhão”, 280 mil menções nas redes sociais foram contabilizadas pelo site a respeito dos protestos em geral, sendo 10,03% dedicadas especificamente à “qualidade do transporte público”, enquanto 6,4% do total ao “governo Dilma”. A postagem recorde da estreia – 22,45% do total mirrado de 490 menções contabilizadas pelo Causa Brasil – foi dedicada à razão do Movimento Passe Livre que agitou inicialmente a avenida Paulista e, em seguida, o país: “preço das passagens”.
Praticamente um mês depois da grande marcha considerada nacional, o total de menções nas redes sociais aos temas das manifestações de junho não chegam a 8 mil. Nos últimos dias, do total, entre 9% e 12% dirigem-se ao “governo Dilma”, de 7,5% a quase 14% ao “papel da Fifa e da CBF”, quase 9% ao “governo Cabral”, mais de 7% ao “papel dos partidos”. O foco dos manifestantes virtuais contempla entre outras bandeiras exaustivamente repetidas ao longo do último mês: “educação”, “segurança”, “gastos públicos”, “democracia”, “governo Cabral”.
“Qualidade do transporte público” é a referência composta por tags, uma palavra-chave, de quem busca arquivos sobre melhores ônibus, melhorias no metrô, sistemas de ônibus, corredores de ônibus.
“Governo Dilma” tem por trás tags de foradilma, apoiodilma, cinco pactos, ficadilma.
“Papel da Fifa e da CBF” nos leva a blatter, contrablatter, contraacbf, foracbf, forafifa.
“Governo Cabral” traz foracabral, tchaucabral, rio de janeiro sem cabral, cabral não me representa, fica cabral, apoio sergio cabral.
“Papel dos partidos” nos reserva mobilização democrática, pp, pstu, prb, pr, pt, ptn, psi, psb, psdb, apartidário, psd, partido verde, md, partido rede.
“Educação” remete a salário professor, escola, royalties do petróleo pra educação, royaltiesdopetroleoparaeducação, cotas.
“Segurança” chama roubo, furto, assalto, iluminação nas ruas, iluminação pública, policiais, salário da polícia, salário da PM.
“Gastos públicos” deriva de gastos do governo, preço do deputado, preço do senador, gasto do senado, trem da alegria, cargos de confiança.
“Democracia” vem de vivapovo, vivaademocracia, primaverabrasileira, forçadopovo, povo unido.
Angela Bitencourt – Repórter e editora especializada na cobertura de economia e finanças para o Valor Econômico
