Não dá mais para culpar a crise global, diz economista
O mau humor com Brasil aumentou e os movimentos nos preços dos ativos negociados no mercado financeiro local revelam que não há conforto, muito menos segurança com o futuro da economia nacional. Dólar e bolsa de valores sofreram um bocado nesta terça-feira (5). A moeda americana ganhou valor diante de muitas moedas, mas aqui – para variar – a alta foi maior.
No mercado de juros futuros, as taxas de longo prazo continuam subindo indicando que o BC terá que ser muito mais rígido com os juros se quiser manter algum controle sobre as expectativas e, se der sorte, sobre a inflação.
Para espantar a careta dos investidores com o Brasil, ministros de estado e a própria presidente Dilma Rousseff passaram a dizer pelos quatro cantos que vão melhorar aqui, mexer dali, desfazer acolá – basicamente assumir uma política de controle de gastos mais eficiente e oferecer um horizonte mais seguro ao investimento.
Já foi suficiente?
“O investidor até vê uma tendência de mudança na dinâmica fiscal ouvindo as autoridades brasileiras. Mas as ações ainda estão diferentes do discurso. O discurso está sim mais amigável, mas ainda não se vê comprometimento real com planos e estratégia para o futuro”, avalia, de Nova York, Marcelo Salomon, economista-chefe para Brasil do banco Barclays.
“Espelho, espelho meu. Qual dos quatro maiores emergentes será o primeiro a perder o status de grau de investimento (dado pelas agências de classificação de risco)?”, pergunta uma reportagem publicada no britânico “Financial Times”. “Provavelmente o Brasil”, responde um relatório assinado por Marcelo Salomon.
Se o Brasil sofrer um rebaixamento das temidas agências estrangeiras, o que pode acontecer até o início de 2014, ainda mantém o grau de investimento – um selo de qualidade que permite que muitos fundos e bancos estrangeiros possam investir dinheiro aqui. Mas fica a um degrau da porta dos fundos (vale o trocadilho).
O alerta sobre a condução da política fiscal brasileira não é novidade. Desde o ano passado, quando aprimorou a contabilidade criativa dos gastos e receitas do país, o governo enfrenta críticas e sinais de que a coisa não acabaria bem. Os últimos resultados das contas públicas, quase que assombrados de tão assustadores, só fizeram intensificar o debate.
“Assustados já deviam estar faz tempo. O governo já devia estar se mexendo há meses. Se a gente olha dinâmica da economia, o Brasil teve quatro anos ruins. Não dá mais para culpar a crise global. É só ver o que está acontecendo com outros países da América Latina, que estão crescendo com investimentos em alta. Alguma coisa precisa acontecer. Se vai piorar demais ou não, ainda não sabemos. Enquanto isso, o câmbio, a inflação e o crescimento se deterioram e complicam o cenário”, alerta Salomon em entrevista ao G1.
Thais Heredia, G1
