BBC News Brasil – O ministro Alexandre de Moraes restaurou a alta do IOF instituída pelo governo. Como o senhor avalia os impactos dessa medida para a economia brasileira?

Meirelles – A questão do IOF é muito controversa, porque o governo certamente está precisando aumentar a arrecadação e está usando o IOF para isso. Agora, por definição, o IOF é uma medida regulatória, que não é normalmente usada no Brasil e em outros países como um imposto arrecadatório – que é o que está acontecendo. Esse é o ponto principal.

Aquela questão de tirar o IOF de algumas transações importantes, eu acho que melhora um pouco a questão e viabiliza um pouco mais.

BBC News Brasil – O Moraes ter decidido sobre esse tema, quando já tinha sido derrubado, desmoraliza o Congresso, como dizem membros da oposição?

Meirelles – Não acho que desmoraliza o Congresso necessariamente. Existe uma controvérsia entre o Congresso e o Executivo, e o Judiciário se pronunciou exatamente sobre o assunto na medida em que ele foi acionado por uma das partes.

BBC News Brasil – Como o senhor avalia o projeto de reforma do Imposto de Renda (IR) e a proposta de taxação para os “super-ricos”?

Meirelles – Isso é uma coisa que tem que ser olhada com um pouco de cuidado. A isenção àqueles de menor renda, [está] tudo bem. O problema são esses aumentos generalizados para pessoas de renda mais alta ou para empresas. Isso aí pode, digamos, prejudicar um pouco da competitividade com o país sendo visto pelos investidores e etc como de taxação ainda mais elevada.

O Brasil é dos países que mais tributam no mundo, principalmente entre os emergentes. A nossa carga tributária é muito elevada. Então, aumentar ainda mais, tem algumas desvantagens importantes nesse aspecto de competitividade.

BBC News Brasil – Mas existem outros países, inclusive países europeus, que aplicam impostos para super ricos, com alíquota mais elevada, e que são competitivos, não?

Meirelles – São países já ricos, de renda muito alta, que taxam muito e oferecem muitas vantagens para os seus habitantes. Mas não são grandes competidores no comércio internacional. Os maiores competidores no comércio internacional hoje, além dos Estados Unidos, são a China, o Vietnã, etc.

Se pegarmos aqueles países, principalmente do norte da Europa, por exemplo, eles não são grandes competidores no mercado internacional de exportação ou de outras áreas, porque são países que taxam bastante. Mas, por outro lado, oferecem um padrão de atendimento à população muito elevado.

BBC News Brasil – O senhor poderia ser afetado pessoalmente por essa proposta?

Meirelles – Não sei, acho que pode ser. Eu não cheguei a examinar sob esse ponto de vista no momento. Mas não é algo que está me preocupando.

BBC News Brasil – A sua opinião não tem a ver com esse fato, então?

Meirelles – Não.